fevereiro 01, 2005

"Hora"

Joaquim Fonseca.JPG
(Joaquim Fonseca)

"Hora"

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner

Publicado por agineotonico às 11:00 PM

dezembro 10, 2004

Frase do dia


"People demand freedom of speech as a compensation for the freedom of thought which they seldom use".
[Soren Kierkegaard]

Publicado por agineotonico às 02:55 PM

dezembro 05, 2004

Bóiam leves, desatentos

Ricardo Viana2.JPG
(Ricardo V)

Bóiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa,
como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas,
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
(Fernando Pessoa)

Publicado por agineotonico às 10:53 PM

setembro 23, 2004

....


"Havia o que não esperas: árvores,
altas árvores de coração amargo,
e o vento rodopia e leva
as folhas cegas
Sobre a cabeça do homem.
Havia um coto de sangue.
(…)
Havia o que não esperas: horas,
minutos como horas
para mastigar o sus-
tocado pelas trevas da mata.

E as minas/ os fornilhos/
as armadilhas com trotil/
ah não vou contar-te um décimo
desta libertinagem.
(…)
Havia o que não esperas: risos,
lágrimas como risos,
lágrimas
como folhas cegas
explodindo ao de leve;
e a morte –"

(Assis Pacheco)

Publicado por agineotonico às 07:43 AM

agosto 04, 2004

Árvore da vida

Publicado por agineotonico às 12:55 AM | Comentários (1)

julho 22, 2004

José Bação Leal (2)

“César: Vou ser punido, e consequentemente transferido. Espetei um murro no of. de transmissões, e o canalha (felizmente) queixou-se.
Total, de momento, o meu desinteresse por esta vida ou por outra. Mueda? Guiné? Ninguém me rouba a flor (vermelha!) dos lábios.
...
Ainda não saiu à ordem (não é assim que eles dizem?). Espero que saia em breve e forte. Não tenciono ceder mais. Aqui, não posso (NÃO DEVO) ficar.
César: inadiável o verão das acácias.

(«no trigo o gume do país, no povo a seara pura»)

25/5/65

(José Bação Leal in Poesias e Cartas)

José Bação Leal
Nasceu em Lisboa em 1942 e morreu aos 23 anos em Nampula, Moçambique, durante a Guerra Colonial. Vítima de uma guerra sem sentido, diz Urbano Tavares Rodrigues no prefácio do seu livro póstumo - "Poeticamente Exausto, Verticalmente Só” - editado pelos amigos e pelo pai: “Além de nos fazer conviver humana e esteticamente com quem teria porventura vindo a ser - não lhe houvessem truncado a vida a crueldade e a insânia que ele denuncia - um dos maiores escritores da língua portuguesa do nosso tempo, este livro fica para sempre, no seu valor testemunhal, como um marco histórico (resumindo a agonia e o martírio de tantos e tantos jovens absurdamente torcidos ou, como ele, quebrados, ao arrepio da história na sua natureza e nas suas opções), eis-nos pois, perante um extraordinário, um apaixonado documento de consciência, que por ser rigorosamente localizado, resulta ainda mais universal”.

CONTINUE A LER

Publicado por agineotonico às 11:10 AM | Comentários (1)

Wilfredo Lam


(La Jungla - 1943)

Publicado por agineotonico às 10:47 AM

julho 20, 2004

José Bação Leal

(Agora, uma experiência poética ...)

Deponho as vestes _____ do dia a dia
a vossos silêncios _____ o coração nu
Exponho meus gestos _____ Esmago alegria
Realizo nos lábios _____ o sorriso cru

Orgia adulta? _____ Oco mistério?
Lembram as sombras _____ preversa ousadia!
vultos irmãos _____ desespero etéreo

Quem coloca o veneno _____ nas esporas do dia?
Quem concentra o galope _____ na boca das malvas?
Onde passeia o fantasma _____ das tardes calmas?
Porque roubaram possessos _____ a gaveta vazia?

(José Bação Leal - carta a José Mário 4 de Fev. 63)

CONTINUE A LER

Publicado por agineotonico às 01:51 PM

julho 19, 2004

Minha Vida



(Kordofan Southern Sudan)


Minha vida
eu a tenho vivido
perdido
meio assim
coração sonho e palavra
felicidade
a vida tem-se dissipado
entre peixe, existência semente
e árvores
com meu peito de samba
minha hora de ventre
meu ser negro somente
concebe sonhos, angústias
(e insurgências ... )
E se assim
me insurjo de mim
em mim mesmo não perco
não ironizo não fujo
em meu peito profundo
sou escuro
em minhas dores tão feridas
nada consta:
se me navego sombra
sou prisioneiro de hipóteses
Algumas delas
me dão perspectivas.

(Wilson Barbosa in Livro I - Outro Canto.
Cela 434, Ilha das Flores, 1969)

Publicado por agineotonico às 04:08 PM

julho 12, 2004

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias


Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva

(José Gomes Ferreira)

Publicado por agineotonico às 01:07 AM

julho 03, 2004

Morreu Sophia de Mello Breyner Anderson


Na minha infância ouvia vezes sem conta o disco "A Menina do Mar" (entretanto reeditado numa péssima gravação) de Sophia Mello Breyner.
Mais tarde, tive oportunidade de ir aprendendo a gostar da sua vasta obra.
"Mar
Metade da minha alma é feita de maresia"
, poderia ser uma frase do nosso hino nacional em substituição do "às armas, às armas sobre a terra e sobre o mar".
Fica -me a esperança que cumpra o prometido em a "Inscrição":
"Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto ao mar"

Publicado por agineotonico às 12:11 PM | Comentários (4)

junho 26, 2004

CADERNO DE ENTARDECER

1

aproximam-se as aranhas do meu projecto de vida,
asas se as tivessem levariam daqui quanto eu risquei
em nome dos vossos interesses, assim o entardecer,

ah as aranhas, as teias, pavores que suporto na pele,
esses livros de versos incompletos, as pedras vazias,
como se nada fosse e ninguém quisesse aparecer,

2

guardai-vos dos dentes, a fera não vem nos livros
desta manhã, anda a jogar ao arco na rua disfarçada
de ternas crianças, se não estivermos atentos nem
as árvores servirão de refúgio, nem os bares, nem o medo,

3

manhã de pequenos corvos sobre coimbra, desfiam-se
as horas como dantes e é tão triste e voam assim baixo
que a terra se encolhe mal lavrada. deste monte, deste
mundo, deste lugar privilegiado no céu da tua boca

onde nem o sol aquece, nem a lua arrefece, longe e gasta.
os motores das chuvas, tudo o que esqueço e se perde
é já deste século, ah isso é tão triste como as manhãs,
como a ronda do cão pelas varandas secretas, sujas,

4

não faltará papel impresso, teremos leis, livros e peles de
animais para fazermos os nossos vestidos. menos uma pena,
menos a opinião dos outros, áparte essas palavras vazias,
e uma rua que se percorre com as mãos nos bolos, triste,

5

escrevo-os, lembrem-se quando pela noite se aproximam
de dentes cerrados, de canos serrados. o chão será de papel,
escrevo-os, e tão torvos os olhos os dedos, lembram-se
da arma perdida em cada palavra, escrevo-os à mesa do café,

6

além está o boi, que é como quem diz, não foi nem podia ser
senão o cartaz dos animais velhos. debaixo de que pedra
colaram o cartaz do seu anúncio? um outro boi assoma
e já se vê o próprio calcanhar da história a amarelecer,

7

era uma vez a mentira nas lentes de uns óculos de sol,

8

mentem as asas do rosto, mentem as pedras do caminho
em definitivo, esvoaçam os pássaros tão lentos e carnívoros,

9

diziam-no cá como em budapeste, mas era demasiado tarde
e, num abrir e fechar de flores, apodreceu a primavera,
os seus fogos de lar, as suas esquinas sem heróis, sem deuses,

10

éramos muitos mais que os mortos, cantávamos na estrada
e andávamos com os pés ensanguentados, aquilo parecia
a conjugação do último dos verbos perdidos, um coração
guardado numa pequena caixa de cartão, ou uma fuga,

11

parecido com as velhas peças de louça nos mármores
dos aparadores, vigiavam-se, afiavam as navalhas
e, sentados, resguardavam todas as palavras do silêncio,

12

assustada, entre a folhagem do jardim dos livros,
tecia o seu pano de linho, os lanhos da vingança,

13

nada lhe digo, sem mágoa, é o tempo que se perde
entre as pedras do ofício. é o verão, os campos
mais secos e um nó na garganta do rio que apodrece,

14

porque me aproximo desta mulher que não tem cores
nem olhos, leio nas suas mãos os anos da fome
guardados num sobrescrito, é um cigarro abandonado,

15

perdemos as cinzas, as terras, os cereais de pragana
e as armas da boca, as rotas já não são as mesmas,
o pó dos caminhos é da cor de um estranho medo,

16

no sabor amargo dos tanques, nada, ninguém cresce,
abrem-se as mãos, ensanguentadas?, e o que cai
no tronco da rapariga das angústias? o regresso
à antiga praia dentro da cabeça, aos teus lábios?

17

em torno dos granitos, os óleos, sobre as águas,
o teu nome como uma torre de fogo e incenso:
e se fingíssemos os invernos? se a língua tocasse,
nos sinos do corpo, o requiem, ou esses venenos?

18

aproximamos os lábios dos lábios, mordemos
a abelha pousada nas costas da mão da acácia,
há um beijo perdido entre as folhas e o amargo
lençol, sobre o teu ombro deixo as palavras,

19

as tuas mãos são as mãos da noite, esse mel
que a língua recolhe no silêncio do corpo.
tocas as raízes, as tardes, as colchas brancas
estendidas, como esses pássaros do outono,

20

esses vales fingidos dividem o horizonte, três aguarelas
marcam o espaço tangente, os rostos vigiam-se, lâminas
em vez de pão em cada manhã, dizem que é coimbra
e eu voo, passa o tempo e a terra de novo se mistura

na voz dos pássaros cantores, no pregão gravado no vinil,
corram as cortinas, é tarde, leio os jornais de ontem,
adormeço rangendo os dentes, rápidos, os corvos descem,
do alto das colinas? mas o olhar desaparece, incomodado,

21

sob as chuvas as palavras caem, ou ecos de palavras,
dissolvem-se, revestidas de um acre mistério onde
os retratos dividem ambas as mãos pelas sombras,
desertos, árvores, entre as naus e os náufragos de outubro,

22

só e em silêncio? apenas ramos de acácias, noites
mortas (as mãos doem?), só e em silêncio? os olhos
perdem-se nos armários e nos mapas do sono,

escrevo, pronuncio, abro a cabeça à fala, importa
um boletim meteorológico, um deus arrependido,
exangue, bíblico, a suicidar-se no bolso do casaco?

e poderia aproximar a língua, em silêncio? enlaçar-te,
estremecer e surpreender-te (as coisas que acontecem
no fio de uma vida) então, é assim o entardecer? na loja
dos horrores, entre restos de deuses, de terra e de anjos,

24

escrevo uma carta, inutilmente a escrevo, adormeço
a desenhar, inutilmente adormeço, que é feito do sonho
e da cobra do medo? conto as pedras, as folhas, os dias,
os lábios, os dedos, os rodeios, as letras do meu nome

(José Viale Moutinho)

Publicado por agineotonico às 05:05 PM

junho 14, 2004

Quando o luar caiu



(Jafar Kari)

Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.
Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no teu tempo consumido.
As pedras crescem como ondas
no silêncio do teu corpo.
Jorram e rolam
como flores violentas.
E sangram como pássaros exaustos
no silêncio do teu corpo
onde a noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.
Súbito e transparente chegaste
quando falsos deuses subornavam o tempo,
chegaste sem aviso
para despedir o defeso e o frio,
chegaste quando a estrada se abria
como um rio,
chegaste para resgatar sem demora o principio.
Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,
hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo
mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô resplandece em tua testa.
E não me bastam pombas dementes no teu rosto
não bastam consciências soluçante em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.
Cantarei em pranto teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.
Para te saudar no mar e no palma
na manhã dos cantos sem represas
saudarei a praia lisa e o pomar.
Direi teu nome e tu serás.

(Conceição Lima. São Tomé e Príncipe, 1986)

Publicado por agineotonico às 12:46 AM

junho 07, 2004

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
e sem medo nem dó nos destruímos,
se morremos em tudo o que sentimos
e podemos cantar, é porque estamos
nus em sangue, embalando a própria dor
em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
e a alma possuirá esse esplendor
prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu - eco da lua
e dos jardins, os gestos recebidos
e o tumulto dos gestos pressentidos
aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
não pelo meu rumor que só perdi,
não pelos incertos actos que vivi,

mas por tudo de quanto ressoei
e em cujo amor de amor me eternizei.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Publicado por agineotonico às 06:07 PM

maio 30, 2004

Canto do Verbo em Busca da Forma


("Madonna" de Edvard Munch)


Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui voo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo.

(Leite de Vasconcelos - Moçambique"

Publicado por agineotonico às 09:26 PM | Comentários (3)

maio 24, 2004

Enquanto


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto.
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

(António Gedeão)

Publicado por agineotonico às 11:25 AM

maio 17, 2004

...


Partir
finalmente partir

O mar azul
ao longe

O barco
preparado

E do último pássaro
o canto desejado

Y. K. Centeno (11/3/1999)

Publicado por agineotonico às 09:07 PM

maio 07, 2004

IRRECUSÁVEL PERCURSO


Longe e indistintas já, no areal
as pegadas iniciam o percurso:
impetuosas e fundas apontam ao mar,
inaudível ainda e sem prenúncio de iodo.

Fundas e rudes, as pegadas cantavam
um rosto radioso e um corpo ainda nu
de quem mantinha os olhos desatentos
às dunas, aos barcos e aos pássaros
e nem imaginava possível o mar.

Agora, o salitre amolda as marcas,
frágeis de pés vagarosos e relutantes
e um fio de neblina turva o olhar
de quem vê e acaricia barcos e pássaros
e sabe o mar em frente e à espera.

De nada serve rodar a cabeça
ou recusar-se ao percurso já alto:
ali, na fímbria das ondas, o mar
é destino e espera, paciente e implacável.

(Fernando Couto - Moçambique)

Publicado por agineotonico às 06:18 PM

maio 05, 2004

Alda Lara

Placard
É bom verificar que tantos anos passados sobre a sua morte, num país distante que não era o seu, a poesia de Alda Lara - que profissionalmente era médica! - é conhecida e admirada.

Existe uma música cantada se não erro, pelo Paulo de Carvalho que complementa esta belissima poesia de Alda Lara.Sentir letra e música para mim é verdadeiramente comovente.
morfeu


TESTAMENTO

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro ...
E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus ...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada ...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor ...
para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora ...
Com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua ...


(ALDA LARA - Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou já um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI). Figura em: Antologia de poesias angolanas,Nova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa - Angola, Lisboa, s/d (196?)1; Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963; Mákua 3, idem; Antologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva (c), Lobito, 1973)

Publicado por agineotonico às 12:02 AM | Comentários (1)

maio 03, 2004

Mãe-Negra


Prelúdio

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela ...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro ...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada ...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar? ...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar? ...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar? ...
Mãe-Negra não sabe nada ...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra! ...
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar ...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar! ...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.

(Alda Lara, 1951)

Publicado por agineotonico às 07:18 AM | Comentários (5)

abril 28, 2004

Uma casa que visitei

(1999-Oleo sobre tela 50x40cm - Francisco Laranjo)

Publicado por agineotonico às 07:50 PM

abril 25, 2004

Anónimo


"...
De repente fecharam-se os sorrisos ao som dos tiros. Dei por mim caída no chão a olhar para uns olhos assustados. Enquanto me levantava disse para aqueles olhos “vem gestas, corre, hoje não é dia para se morrer”. Mas ele não se levantou, nem correu ... senti que me arrastavam pelos braços e ouvia vozes “estúpida, estúpida, estúpida”, “cala-te que ela está ferida”, “olha a perna dela, olha”. Finalmente encostada contra uma parede, encolhi os joelhos e chorei sobre o sangue que me manchava as calças, sobre aqueles olhos assustados para nunca mais ..."

Publicado por agineotonico às 08:35 PM

O AMOR


Também por tudo isto, meu amor, nós tivemos de percorrer os becos negros do medo, num tempo sem luz - e amavamos a cidade.
Navegámos na aventura de recusar evidências.
Tivemos de fugir, construir paraísos clandestinos, e descobrir cerejas onde só havia cardos.
Mergulhámos, verticais, na raiva de resistir ao destino e à má sorte.
Aprendemos, na dor, a amar a arquitectura das coisas com os olhos das mãos.
Como o pescador ama o céu e o mar, e os recados que o vento lhe rasga no chão da pele.
E o camponês ama a terra no milagre repetido de a fazer parir o pão - e a sombra dos pinheiros.
Como o marinheiro ama a linha do horizonte e o porto de chegada - ou de partida.
E o operário ama a cambota que constrói diariamente - à espera da saída.
Como o mineiro ama os labirintos de lama, o fogo do carvão - e o luar.
Assim ensinarás sempre os teus caminhos às minhas mãos sedentas. E eu hei-de percorrer-te, saber os teus segredos, sair para a rua em Maio, e conquistar, contigo, inteira, a dimensão de amar.
(José Fanha in Busca)

Publicado por agineotonico às 03:39 PM

A MEDIDA EXACTA


um homem
não tem tamanho
nem preço
nem medida
vale pelo que produz
desde o começo
até ao fim da sua vida

e se
com mão firme sobre o leme
que conduz
se destaca do anónimo rebanho

e o inimigo o teme

(António Joaquim Linhaça, 1979)

Publicado por agineotonico às 03:20 PM

abril 22, 2004

Os inconformistas

"Portugal é um país de conformistas exuberantes e de inconformistas silenciosos ou silenciados ... inconformista é quem vai contra a corrente. Faz análises contra o senso comum e propostas para além do que é considerado legítimo. Ser inconformista é muito difícil, devido ao peso dos média. Por um lado, reforçam o conformismo ao transformá-lo na opinião pública. Por outro lado, ante o que identificam como inconformismo, ou ignoram-no, se podem, ou, se não podem, hostilizam-no pela dramatização, caricatura ou insulto" ...

Passo por cima das considerações que Boaventura dos Santos tece sobre Saramago e o seu último romance, que acho uma reflexão bastante interessante, diga-se de passagem. Queria apenas referir outras considerações que faz neste seu artigo, com as quais concordo plenamente e que vão na mesma "linha" de ideias da minha "posta" "O povo sabe a diferença".

Diz Boaventura dos Santos que: "o aumento das desigualdades sociais cria um padrão de relações entre cidadãos em que é patente o abismo entre a democracia política e a democracia social" e que podemos "estar a entrar num período em que as sociedades são politicamente democráticas mas socialmente fascistas".
...
"os inconformistas quase nunca têm razão nos precisos termos em que se manifestam. Mas quase sempre têm razão na identificação do problema que os inconforma e no sentido geral da solução que eventualmente lhe será dada."

(in Visão 579)


GIN

Publicado por agineotonico às 06:30 PM

abril 08, 2004

País de Abril


São tristes as cidades sob a chuva
E as canções que se atiram contra as grades
- a minha pátria vestida de viúva
entre as grades e a chuva das cidades.

É triste o cão que ladra no canil
Quando é março ou abril e lhe prendem as pernas
É triste a primavera no País de Abril
- minha pátria perfil de mágoas e tabernas.

É triste: uns vestem-se de abril outros de trapos.
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas
- a minha pátria bordada de farrapos
capa de trapos remendada a verdes folhas.

Abril tão triste no País de Abril. Por fora
é tudo verde. (Abril com máscaras de festa).
Por dentro – minha pátria a rir como quem chora.
(A festa da tristeza é tudo quanto lhe resta).

Abril tão triste no País de Abril. Aqui
A noite aqui a dor meninos velhos
- minha pátria a chorar como quem ri
em surdina em silêncio. E de joelhos.

(Manuel Alegre in Praça da Canção)


GIN

Publicado por agineotonico às 10:49 AM

abril 07, 2004

(Re)caracterizar a classe política

e não só ...

Trinta dinheiros

No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem humanos.
Custam apenas trinta dinheiros.

(Manuel Alegre in Praça da Canção)

Publicado por agineotonico às 10:11 AM

dezembro 31, 2003

NO MORE, NO LESS

No more, no less,
Come as a friend.
Not stupid, not smart,
Come as a human being.
Not pretty, not ugly,
Come as you are.
Not early, not late,
Come on time.
Not shy, not outgoing,
Come with personality.
Not happy, not sad,
Come with feelings.
Don't come with a fake identity,
Come as you always are.

(desconheço o autor, se alguém souber, agradecia que o referenciasse)


GIN

Publicado por agineotonico às 07:06 AM | Comentários (8)

dezembro 30, 2003

DE PROFUNDIS, VALSA LENTA


De resto, a desmemória não só o isolou da realidade objectiva, como o destituiu, pode dizer-se, de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque, sem a consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante. As suas virtudes ou os seus males só podem ser reconhecidos como significantes sentimentais em contraponto com a consciência da nossa identidade, isto é, com a tradição da comunicação que praticamos com a sociedade e com a nossa memória cultural. A ele tal coisa estava-lhe vedada, memória onde tu já ias. Daí a total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse , não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina do ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.”
(José Cardoso Pires in De Profundis, Valsa Lenta)

Publicado por agineotonico às 10:23 AM

dezembro 27, 2003

EU NÃO TINHA ESTE ROSTO

"Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim magro, assim triste, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas, eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil.
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

(Cecília Meireiles)

Publicado por agineotonico às 05:50 PM

dezembro 15, 2003

A PALAVRA AOS AUTORES - Marguerite Yourcenar


"Mesmo que um dia o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio o reflexo imóvel de ti. E desse modo imobilizarei a tua alma também.
Tu já não me amas. Se consentes em ouvir-me durante uma hora é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar. Ligaste-me e agora desligas-me. Não te censuro, Gherardo. O amor de alguém é sempre um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela ....
... só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos."

(Marguerite Yourcenar – “O TEMPO – esse grande escultor”)


GIN

Publicado por agineotonico às 01:29 PM | Comentários (1)

dezembro 14, 2003

PALAVRA AOS AUTORES-TEOLINDA GERSÃO


“A ausência de sonho como alicerce de uma sociedade inteira, disse ela, uma sociedade sem desejos, sem paixão, e por isso ordenada, programada, bem adaptada ao seu próprio trilho, é preciso esmagar o desejo como forma de rotura, porque se de repente todos começassem a desejar, a imaginar, o mundo conhecido cairia por terra e entrar-se-ia noutro, diferente, e é essa possibilidade aterradora que é preciso esmagar a todo o custo, eu bem sei que seria perigoso, porque se de repente alguém dissesse: quem odiar a sua vida ao meio dia abra a janela e salte, toda a gente saltaria ao bater do meio dia e a rua ficaria de repente cheia de pessoas inadvertidamente mortas, mas por outro lado só quando se compreende que a alternativa é mudar a vida ou saltar da janela se adquire a exacta perspectiva das coisas.”
(in O Silêncio – Teolinda Gersão)


GIN

PALAVRA DOS AUTORES

Publicado por agineotonico às 12:28 PM

novembro 25, 2003

0 que é a morte?

É um dia mais curto ... era a definição de algumas populações de Angola que o colonialismo fez com que desaparecessem.

Devemos acabar com um dos últimos cultos – o da morte.
Para o angolano, há muito que acabou ... morrer, é um dia que acabou mais cedo.
(O que é a morte - entrevista com António Lobo Antunes na Sic)

TÓNICO

Publicado por agineotonico às 07:13 AM

novembro 03, 2003

PENSAMENTO DO DIA


Não podemos separar o que se passa à nossa volta do que se passa connosco, assim, todas as coisas que dizemos e fazemos tem um significado político.


GIN

Publicado por agineotonico às 07:25 AM

outubro 31, 2003

PENSAMENTO DO DIA


"Mais vale estar calado e parecer-se estúpido, do que abrir a boca e confirmá-lo!!"

Publicado por agineotonico às 07:38 AM

outubro 21, 2003

PENSAMENTO DA NOITE

"Ninguém está livre de dizer tolices; o imperdoável é dizê-las solenemente".
(Montaigne)

Publicado por agineotonico às 11:52 PM

outubro 20, 2003

PENSAMENTO DA NOITE


"OS TEUS ACTOS, E NÃO OS TEUS CONHECIMENTOS, É QUE DETERMINAM O TEU VALOR".

(Fichte)

Publicado por agineotonico às 02:19 AM

outubro 18, 2003

PENSAMENTO DA NOITE


"Um homem sem paixões está tão perto da estupidez que só lhe falta a abrir a boca para cair nela"
(Séneca)

Publicado por agineotonico às 11:58 PM

PENSAMENTO DA NOITE


Não leves a vida demasiado a sério, nunca conseguirás sair dela vivo. (Hubbard)

Publicado por agineotonico às 01:34 AM | Comentários (1)

outubro 17, 2003

PENSAMENTO DA NOITE


"Todo o homem que encontro é me superior em alguma coisa. E, nesse particular, aprendo com ele“.

(Emerson)

Publicado por agineotonico às 01:07 AM

outubro 16, 2003

PENSAMENTO DA NOITE


Não vos fieis nas aparências. O tambor com todo o estrondo que faz, não é cheio se não de vento.
(Mark Twain)

Publicado por agineotonico às 12:12 AM

outubro 14, 2003

PENSAMENTO DA NOITE


"Se tivéssemos que estudar todas as leis, não teríamos tempo para as transgredir."
(Goethe)

Publicado por agineotonico às 11:31 PM

A SUBJECTIVIDADE DAS COISAS


"O mundo não é o que existe, mas o que acontece"
(Mia Couto - O último voo do Flamingo)

"Ouvimos, calamos e fazemos de conta que, calados, obedecemos"
(idem)

Publicado por agineotonico às 08:43 PM

FRASE DO DIA

"Discernimento é uma coisa que não se aprende na universidade. Ou se tem ou não se tem"(Montapert)

Publicado por agineotonico às 07:37 AM

outubro 13, 2003

PENSAMENTO DA NOITE


"As convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras"
(Nietzsche)

Publicado por agineotonico às 09:56 PM | Comentários (4)

outubro 12, 2003

FRASE DO DIA

"The reasonable man adapts himself to the world; the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself.
Therefore, all progress depends on the unreasonable man."

(George Bernard Shaw)

Publicado por agineotonico às 12:32 PM

outubro 10, 2003

FRASE DO DIA


"Por vezes, a ambição condena os homens aos mais humildes trabalhos.
Assim, para subir ou para andar de rastos, a posição é a mesma. "

(J. Swift)

Publicado por agineotonico às 07:25 AM | Comentários (2)

outubro 09, 2003

A ARTE NÃO TEM FRONTEIRAS

Publicado por agineotonico às 07:39 AM | Comentários (3)

outubro 07, 2003

O QUÊ?

ainda as fotos dos grafitties ...

Publicado por agineotonico às 01:20 AM

outubro 06, 2003

ESTA CIDADE QUE EU GOSTO

(Graffitti entre Campolide e Amoreiras)

Publicado por agineotonico às 01:52 PM

outubro 05, 2003

NO MUNDO DOS GRAFFITTI

(foto do TÓNICO)

Publicado por agineotonico às 06:45 PM

UM GIN TÓNICO, POR FAVOR


(foto da GIN)

"Todos conhecem claramente o direito e o dever: o direito para si e o dever para os outros"
(Voltaire)

Lembrando-me desta tirada ontem à noite, lá me deu a sede : Um Gintónico, por favor ....

Publicado por agineotonico às 12:58 PM

outubro 03, 2003

O ASSOBIADOR

(Paul Signac)


...
Dissoxi era moça vinda não se sabe de onde.
...
Um mistério em forma de mulher.
A curiosidade levou-a à igreja. Foi à missa das seis, coisa rara de ser feita por ela. À medida que as pessoas foram saindo, ela deixou-se estar, fingindo rezar.
Notou que o padre fizera sinais lá para cima durante toda a missa, mas não percebeu do que se tratava.
Quando já vazia a igreja estava, o padre fez sim com a cabeça e, de lá do sítio onde repousa o órgão, saiu um som tão puro que parecia moldado com o barro dos nossos melhores sonhos. Ela e o padre imobilizaram as suas atenções, posturas e olhares. O homem desatou num assobio verdadeiramente choroso, numa comoção altamente contagiante, como se a sua vontade de chorar estivesse amordaçada e o único recurso de que se podia valer fosse aquele assobio!
...
Na brutal escuridão que se instalou, o assobiu agudizou a sua triste intensidade, transformando-se num verdadeiro grito de dor e de amor, que incomodava pelo tom nítido da sua solidão, mas imobilizava pela sua beleza.
...
Num momento repentino, cortou completamente o som, assustando, com o seu silêncio, a bela Dissoxi.

(O Assobiador - Ondjaki)

Publicado por agineotonico às 04:58 PM | Comentários (3)

Sophia de Mello Breyner Andresen


(foto do Tónico)

Os cabelos embora o vento passe

Já não se agitam leves. O seu sangue,

Gelando, já não tinge a sua face.

Os olhos param sob a fonte aflita.

Já nada nela vive nem se agita,

Os seus pés já não podem formar passos,

Lentamente as entranhas endurecem

E até os gestos gelam nos seus braços.


Mas os olhos de pedra não esquecem.

Subindo do seu corpo arrefecido,

Lágrimas lentas rolam pela face,

Lentas rolam, embora o tempo passe.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Níobre transformada em fonte
(adaptado de Ovídio)

Publicado por agineotonico às 12:07 AM | Comentários (3)

outubro 01, 2003

ABRAÇO


foto da GIN

Publicado por agineotonico às 06:24 PM

setembro 28, 2003

A CIDADE

Fotografia do Tónico

Publicado por agineotonico às 11:24 PM

setembro 27, 2003

FERNANDO PESSOA

Chuva Oblíqua

I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas ...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado ...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol ...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo ...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro.
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro ...

Não sei quem me sonho ...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma ...

(Fernando Pessoa - ficções do interlúdio)

Publicado por agineotonico às 11:42 PM

FLORBELA ESPANCA


Foto tirada por Gin e Tónico no Parque dos Poetas em Oeiras

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias ...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas ...
Sobre o meu coração pesam montanhas ...
Olho assombrada as minhas mãos vazias ...

(charneca em flor)

Publicado por agineotonico às 01:00 AM

NATÁLIA CORREIA


Foto tirada por gin e tónico no Parque dos Poetas em Oeiras

CRUCIFICAÇÃO

Vertical sou contra Deus
Horizontal a favor.
Nesta cruz me crucifico.
Vertical com desespero.
Horizontal com amor.

Publicado por agineotonico às 12:51 AM

setembro 26, 2003

QUERO SER O TALVEZ!!!


(Foto tirada da capa da revista MODERN PAINTERS)

Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta. (Pepetele in Mayombe)

Publicado por agineotonico às 03:27 PM | Comentários (2)

setembro 20, 2003

Illusion

Ilusão?

Publicado por agineotonico às 11:49 PM