outubro 31, 2004

Troca de correspondência ...

entre Monsenhor Carlo Maria Martini e Umberto Eco.

"Concretamente: em que se baseia a certeza e imperatividade de seu agir moral que não pretende fazer apelo, para fundar o absolutismo de uma ética, a princípios metafísicos ou, de qualquer modo, a valores transcedentes e sequer a imperativos categóricos universalmente válidos? Em palavras mais simples (pois alguns leitores lamentaram-se comigo de que os nossos diálogos são demasiado difíceis), que razões dão para seu agir aqueles que pretendem afirmar e professar princípios morais que podem exigir o sacrifício da vida, mas não reconhecem um Deus pessoal? Ou ainda: como posso chegar, prescindindo do apelo a um Absoluto, a dizer que não devo realizar certas acções de modo algum, a preço nenhum e que outras, no entanto, devem ser realizadas custe o que custar?"
(Monsenhor Carlo Maria Martini)

"certamente todo homem tem noção do que significa perceber, recordar, sentir desejo, medo, tristeza ou alívio, prazer ou dor, e emitir sons que exprimam estes sentimentos. Portanto (e já entramos na esfera do direito), temos concepções universais acerca do constrangimento: não desejamos que alguém nos impeça de falar, ver, ouvir, dormir, engolir ou expelir, ir aonde quisermos; sofremos se alguém nos amarra ou mantém segregados, nos bate, fere ou mata, nos sujeita a torturas físicas ou psíquicas que diminuam ou anulem nossa capacidade de pensar.
(...) Toda lei, moral ou jurídica, regula relações interpessoais, inclusive aquelas com um Outro que a impõe.
(...) A perspectiva laica não foi para mim uma herança absorvida passivamente, mas o fruto, muito sofrido, de uma longa e lenta mutação, e não estou certo de que algumas de minhas convicções morais não dependam ainda de uma influência religiosa que marcou minhas origens
".
(Umberto Eco)

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Publicado por agineotonico às 10:32 PM | Comentários (4)

abril 26, 2004

Jogo do "Ser e do Parecer"

(Dos afectos à construção da Sociedade Democrática)

Quando se fala em democracia, nas sociedades de hoje, não consigo deixar de pensar em certos pais que são tolerantes com os seus filhos enquanto eles fazem o percurso que, do seu ponto de vista, consideram adequado, mas que, quando os filhos se autonomizam e decidem um percurso de vida diferente ao que lhes “estava destinado”, lhes “apertam os calos” através de medidas que vão desde o “corte da mesada”, até à agressão verbal e física.
O mesmo se passa ao nível social: enquanto nos mantivermos na “linha”, passivos perante as políticas económicas e sociais postas em marcha, temos a tolerância do poder. Quando tomamos uma atitude activa de contestação, então, “apertam-nos os calos” através de medidas que vão desde o controle da comunicação social, passam por exclusão dos “críticos”, pela liberalização do emprego e, se for necessário, pela repressão policial.
E, tal como os pais que utilizam o dinheiro para controlar, agradar ou punir os filhos, o poder económico também arranja estratégias de alienação para impedir a contestação.
Muito se fala da sociedade que apela ao consumismo. É verdade que este é uma necessidade do poder económico, mas a forma como esse apelo é feito tem efeitos perversos na socialização e, consequentemente, na construção individual dos valores que guiam as nossas expectativas e as nossas condutas.
Fala-se, então, da crise de valores que enferma as sociedades actuais. O discurso do poder não nos impede de falar sobre estes assuntos como noutros tempos, pelo contrário, são os primeiros a diagnosticar as situações, mas atribuem-nos individualmente as culpas quando é ele próprio a fornecer os meios.
Cria-se o “modelo” do humano bonito, rico e feliz consigo próprio, ridiculariza-se e despreza-se o ser humano solidário – “ou tens as minhas ideias e fazes o que eu quero, ou estás contra mim e não tens lugar no nosso mundo”.
Temos relações de competitividade desleal, fora do circuito da competência, temos a vida construída sobre falsos pressupostos, sobre o “parecer ser”, perdemos a maior parte das nossas energias a lutar para pagar os custos dessa aparência imposta e ficamos sem tempo para “olhar” para nós e para os outros, os nossos filhos incluídos.
Neste jogo do “ser e do parecer”, incluem-se tanto os aspectos de carácter económico, como, em muitos casos, aspectos ligados à afirmação intelectual, à chamada “cultura”.
Se nuns vemos um “vazio cultural” e um enfoque na aparência de riqueza material, noutros vemos um “vazio cultural” e um enfoque num discurso democrático deslocado da prática individual que leva, muitas vezes, à incoerência na análise das situações concretas.
Uns e outros são filhos dos mesmos pais, varia apenas as diferenças individuais sobre as quais se constróem. Ambos são capazes de olhar para dentro de si, mas são cegos e surdos para algumas das suas áreas.
Contudo, restam ainda algumas “ovelhas ranhosas” desta grande família ... aqueles que acreditam que é possível construir uma vida pessoal e social baseada em bases sólidas de solidariedade humana.


GIN

Publicado por agineotonico às 02:12 PM

ALEXITIMIA

(Dos afectos à construção da Sociedade Democrática)

Alexitimia – léxis (ausência) + thimos (emoção)

A alexitimia – Perda ou incapacidade de reconhecer sentimentos e emoções, ou elaboração de fantasias. É um termo que se refere a pessoas que têm uma marcante dificuldade para identificar, ou descrever os seus sentimentos.
Muitos investigadores têm tentado identificar as características clínicas da alexitimia. Depois das observações iniciais, em 1972 numa conferência em Londres atribui-se como provável uma etiologia biológica e em 1976 em Heidelberg é classificada em conjunto com os transtornos psicossomáticos. Nos anos seguintes, inúmeros estudos clínicos encontraram características alexitimícas, em percentagem variável, em pacientes que sofriam de diferentes distúrbios (abuso de substâncias, transtorno alimentar, depressão típica, personalidade borderline, transtornos somatoformes) mas também em indivíduos normais.
A prática clínica, por seu lado, ainda defende ter motivos para considerar que não há, necessariamente, uma ausência de emoções, apesar de, na maioria dos casos, os alexitímicos sofrerem de incapacidade para manifestar as emoções, para descrever os seus próprios sentimentos ou para reconhecer os sentimentos dos outros, para discriminar as suas emoções de sensações físicas, isto é, não conseguem estabelecer uma conexão de causa e efeito.
Têm-se vindo a incluir neste constructo algumas características do chamado pensamento operatório. De facto, a capacidade para elaborar representações mentais evolui desde muito precocemente e está ligada intimamente à competência de regulação afectiva. Há, assim, uma relação de dependência do desenvolvimento intelectual (ou inteligência racional) das nossas emoções, da nossa capacidade de as reconhecer, de falar sobre elas e de as controlar, ou seja, da nossa inteligência emocional.
Se é verdade que sentimentos fortes nos podem devastar ou toldar o raciocínio, a falta de sentimentos é ainda mais destrutiva, principalmente, em momentos de avaliar e tomar decisões importantes para a nossa vida, para o nosso futuro, decisões duradouras.
Nos alexitimícos observa-se uma focalização nos acontecimentos exteriores em detrimento da experiência íntima, o seu modo de pensar e de viver está exclusivamente virado para a realidade externa e, por isso, demonstram uma adaptação excessiva às exigências do meio, com uma hiperactividade artificial e pragmática que os incapacita de simbolizar a representação (o “pensamento operatório”), de fantasiar e os leva a apresentar uma grande pobreza nos investimentos libidinais. Estas pessoas, na maioria das vezes, demonstram boa capacidade de adaptação social e são boas profissionais, mas vivem em permanente estado de tensão, rivalidade e competição e bloqueiam a expressão física deste estado, dessas emoções.
As pessoas que possuem um elevado nível de inteligência emocional são capazes de, facilmente, identificar e descrever os seus próprios sentimentos e os dos outros, assim como sabem regular os estados de activação emocional em si e nos outros de forma a usarem as emoções de forma adaptativa.
Cada vez são mais os estudos que estabelecem relação entre inteligência emocional e saúde mental e física. O controle emocional já foi implicado como um dos factores que protegem o estado de saúde e, por outro lado, a alexitimia já foi associada a situações de doença e a um aumento da mortalidade de todos os tipos.
Nos médicos ainda há muito cepticismo relativamente ao papel das emoções no adoecimento somático, mas a verdade é que se têm estabelecidos relações firmes entre uma coisa e outra.


GIN

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abril 15, 2004

Quando não conseguimos crescer

Sem dúvida que as experiências por que passamos na infância e na adolescência deixam marcas que se reflectem na vida adulta. Muitos de nós conseguimos reconciliar-nos com esse nosso passado, sobretudo quando ele teve momentos muito dolorosos, conforme vamos avançando na vida. Outros, ficam presos às memórias desse passado e sentem vergonha do que foram porque não conseguiram reconstruir a sua auto-estima ... vivem num profundo estado de tristeza.
Vem isto a propósito de um artigo de Pedro Mexia na revista "Grande Reportagem" de 28 de Fevereiro sob o título "Um mundo que acaba. Ainda bem. Feira Popular, Elegia".
Pedro Mexia descreve uma infância e adolescência vividas como períodos para esquecer porque "da adolescência, essa, tinha forçosamente de estar acoplada a algo rasca e duvidoso, visto que foi o período mais lamentável que vivi ... o sonho do adolescente pobre de espírito, povoado de máquinas ... e de divertimentos que ignora serem tristes. Pensava espantado e mudo ... por aquela assombração de engenhocas, de fantasias, de creche à solta ... o comboio fantasma ... julgando que o medo era aquilo ... os tirinhos que me denunciavam a inépcia ... os carrinhos de choque ... a incomoda sensação de riso canibal das raparigas ... e depois, deixei de ir à Feira. Acabada a adolescência, atravessada a noite ... Agora, ao que parece, a Feira Popular vai para mais longe. Talvez para o Monsanto. Ainda bem. Longe da vista. Longe do coração."
Percebo e aceito que a Feira Popular possa despertar em Pedro Mexia memórias dolorosas, mas custa-me a aceitar que, por esse motivo, se centre sobre si mesmo e não questione o essencial da questão: a destruição do Monsanto, que Santana Lopes insiste em levar a cabo, e os interesses dos lobbies da especulação imobiliária que cobiçam aquela zona da cidade.


GIN

Publicado por agineotonico às 06:48 PM

dezembro 17, 2003

PAUL NEWMAN


Teve fama no cinema.
Foi dono de uma equipa de competição automóvel e um piloto razoável.
Agora é um homem de sucesso na indústria alimentar em parceria com o escritor A. E. Hotcher.

Nada disto me pareceria importante de referir, não fosse o caso de este seu negócio, que rende anualmente mais de 10 milhões de dólares, reverter a favor de Instituições de caridade.

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Publicado por agineotonico às 02:04 PM | Comentários (2)

dezembro 07, 2003

Sociedade Democrática (7) - A relação Pura

Em termos abstractos, uma “relação pura” seria uma relação assente na ligação emocional, onde os alicerces da sua própria continuidade derivasse da satisfação que ela proporciona.

Uma “relação pura” depende da confiança mútua, da abertura em relação ao outro e é, implicitamente, democrática, dela não fazem parte jogos de poder, coacção ou violência.

Uma boa relação define-se por ser uma relação entre iguais, onde há respeito mútuo, onde a comunicação permite ter em conta o ponto de vista do outro, onde o diálogo é a dinâmica da relação.

A “relação pura” é, pois, uma construção a dois, não aparece de geração espontânea nem nasce de uma qualquer medida legislativa.

Mesmo nas sociedades ocidentais, a questão da igualdade entre os sexos e a liberdade das mulheres não é um dado adquirido, é e continuará a ser uma luta quotidiana pela verdadeira democracia.


GIN

Publicado por agineotonico às 02:49 PM

Sociedade Democrática (6) - A Intimidade

A ideia de intimidade como componente do casamento é recente.

Se na família tradicional, a intimidade no casamento podia existir mas não era a razão da sua existência, para o casal é.

Para o casal a ligação emocional é o início do estabelecimento da relação e, mais tarde, a principal razão para a manter.

Na família tradicional o casamento era entendido como mais uma das fases da vida por onde se tinha de passar e os filhos eram vistos como um recurso de natureza económica.

Na família ocidental actual, o casamento quer dizer que o casal vive uma relação estável e os filhos constituem um pesado encargo económico, por isso tendem a ser uma decisão mais pensada.

Os antigos laços definidores das relações sociais têm vindo a ser substituídos pelas particularidades das relações que se desenvolvem com base na ligação emocional e, consequentemente, na intimidade.

As áreas que sofreram mais este impacto são as relações de amor e sexo, as relações entre pais e filhos e as relações de amizade.

Estas mudanças na instituição familiar e nas relações sociais são muito visíveis nas sociedades ocidentais mas começaram já a globalizar-se.

A igualdade entre os sexos e a liberdade das mulheres são consideradas pelos fundamentalistas como uma maldição e é isso que, visivelmente, define os grupos fundamentalistas religiosos em todo o mundo.

A manutenção de muitos dos aspectos da família tradicional é negativa, principalmente os que impedem o desenvolvimento económico e das democracias.

Sabe-se que desenvolvimento económico e democracia andam a par e passo com o nível de educação e de igualdade das mulheres.

A igualdade sexual é um princípio fundamental da realização individual e da democracia.

Os países que resistem à discussão sobre estas duas ideias - igualdade entre os sexos e a liberdade das mulheres – são países com governos autoritários ou com fortes influências de grupos fundamentalistas que tentam resistir à influência da globalização.

Penso que é nesta perspectiva que deve encarar-se as propostas de alteração da Mudawana apresentadas pelo rei de Marrocos Mohammed VII, ou seja, a consciência da inevitabilidade e necessidade destas alterações.

Esta medida, penso eu, apenas coloca a discussão na praça pública porque o caminho a percorrer é longo e complexo.
Uma “relação pura” de igualdade sexual é, ainda hoje, um conceito meramente abstracto apesar de todas as mudanças ocorridas.


GIN

Publicado por agineotonico às 01:01 PM

Sociedade Democrática (5)- Os Afectos


A “ Família tradicional”, apesar das diferenças que engloba, tinha como característica dominante, o constituir-se como uma unidade económica.

Os afectos não intervinham na decisão destas uniões e a desigualdade entre sexos era um factor intrínseco.

As mulheres passavam da propriedade dos pais, para a propriedade dos maridos porque era considerado fundamental assegurar a linhagem e os bens familiares através de filhos legítimos de mulheres legítimas.

É assim que se entende que na família tradicional, a sexualidade esteja ligada à ideia de reprodução e, para as mulheres, ligada directamente à gravidez.

Esta instituição familiar deu origem, também, a uma visão dualista da sexualidade feminina que levou a caracterizar para um lado as mulheres virtuosas, e para o outro, as libertinas.

Nas últimas décadas, têm vindo a dar-se alterações profundas na estrutura da família. Reprodução e sexualidade deixam de ser sinónimos, a sexualidade começa a ser entendida como algo que se pode moldar e alterar.

Mas a família tradicional de que falamos hoje, e que serve hoje de palco de contendas entre tradição e modernidade, é a que se desenvolveu a partir dos anos 50 quando poucas mulheres integravam o mercado de trabalho mas onde havia já diferenças importantes.

As mulheres tinham ganho alguma igualdade/autonomia porque o casamento tinha deixado de ser um contrato económico para dar lugar a uniões baseadas no “amor romântico”, esbatia-se a unidade económica que caracterizava a família tradicional.

Nas sociedades actuais coexistem, paralelamente, organizações familiares de deferentes tipos, mas os fundamentos mudaram.
O casamento tradicional, em que o enfoque era colocado nos interesses e necessidades da família alargada, passa a dar lugar a uma ligação que dá maior importância ao “casal” e ao “acasalamento”.

O casal passa a ser o centro da existência familiar, a função económica da família vai-se diluindo, o amor e a atracção sexual tornam-se aspectos que integram o casamento.
É uma unidade que se baseia na ligação emocional e na intimidade
.


GIN

Publicado por agineotonico às 11:00 AM | Comentários (1)

dezembro 06, 2003

Sociedade Democrática (4) - O Fundamentalismo

O desenvolvimento do fundamentalismo deve-se a uma tentativa de dar resposta à influência crescente da globalização, ele exige o retorno a uma leitura literal dos textos básicos e à sua extrapolação para a vida económica, política e social.

“O fundamentalismo é a tradição encostada à parede. É a tradição que se defende à maneira tradicional – através da referência à validade do ritual – num mundo globalizante que exige conhecer as razões ... o fundamentalismo é filho da globalização.” (Giddens)

Mas o fundamentalismo levanta questões importantes, nomeadamente, a questão de saber se é possível viver num mundo em que nada é sagrado.

É por isso que, no lado oposto, os cosmopolitas devem mostrar que “a tolerância e o diálogo também se podem guiar por valores universais ... todos nós necessitamos de estar comprometidos com princípios morais que estejam acima das pequenas preocupações e disputas da vida do dia a dia”.

Mas de todas as mudanças que se estão a dar em todo o mundo, as mais importantes são as que nos afectam a vida pessoal: a sexualidade, relações, casamento e família.

Estas mudanças estão a ter impacto e a modificar a forma como nos vemos a nós próprios e como estabelecemos relações com os outros, mas tem diferentes velocidades, enfrenta fortes resistências consoante as culturas e as regiões do mundo.

São as modificações que levam mais tempo a processar-se porque entram bem fundo na esfera da nossa vida afectiva.
Em praticamente todos os países do mundo se discute acesamente a igualdade sexual, a sexualidade e a família.


GIN

Publicado por agineotonico às 08:03 PM

Sociedade Democrática (3) - A Tradição

A tradição, para Giddens, é o conceito mais básico do conservadorismo porque assenta na ideia de que é sinónimo de sabedoria.

As mudanças trazidas pela modernidade às instituições públicas, ao serem confrontadas com os métodos tradicionais, colocaram no “limbo” algumas instituições como a família, a sexualidade e a distinções entre sexos, verificando-se nestas a persistência do peso da tradição e costume.
Ou seja, nas sociedades actuais coabitaram, e coabitam, a modernidade e a tradição.

Com a globalização, estas instituições, (públicas, a família, a sexualidade e a distinções entre sexos) tendem a perder a influência das tradições, “poucos dos aspectos do mundo físico permanecem inteiramente naturais, não afectados pela intervenção humana”.

Isto não significa o fim das tradições, porque elas são necessárias para dar continuidade e forma à vida, mas sim o seu reaparecimento em versões diferentes.

Com as tecnologias da informação, a modernização não se limita a áreas geográficas precisas mas fazem-se sentir a nível global, reflectindo-se nas tradições.

“Uma sociedade que vive para lá da tradição e da natureza, como sucede em quase todos os países ocidentais de hoje, exige que sejam tomadas decisões, tanto na vida corrente como em todos os outros domínios. O lado escuro da tomada de decisões é o aumento das dependências e da repressão.” (Giddens in O Mundo na era da Globalização)

O conceito de dependência alarga-se a muitos dos domínios da vida quotidiana: trabalho, comida, exercício, etc. E dependência significa perca de autonomia, significa que a escolha não vem pela via da autonomia mas pela via da angústia, considera Giddens.

Se na tradição, o presente resulta de um passado de sentimentos e crenças colectivas partilhadas, na dependência, o presente também resulta do passado mas apenas naquilo que não conseguiu romper com os hábitos que começaram por ser escolhidos autonomamente.

Diz Giddens, que “a luta entre dependência e autonomia está num dos pólos da globalização. No outro, encontra-se o embate entre o estilo cosmopolita e o fundamentalismo." (idem)


GIN

Publicado por agineotonico às 04:04 PM

A Sociedade Democrática (2)

A. Giddens, pioneiro do conceito Terceira Via, considera que o fenómeno da globalização não se resume às questões da esfera económica, que é um fenómeno muito concreto que, para além desta área, atravessa as áreas política, tecnológica e cultural.

Vai mais longe dizendo que é, também, um fenómeno interior que influencia a nossa vida nos seus aspectos mais íntimos e pessoais.

A luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres resultaria, também, deste processo de globalização que é constituído por uma rede de processos complexos.

Giddens vai às antigas raízes linguísticas da palavra “tradição”, tradere, que era aplicada num contexto jurídico para regular as heranças, a passagem de geração em geração da propriedade que deveria ser preservada e protegida.

Assim, “tradição”, no sentido que hoje se lhe confere, tem um significado recente, é uma criação da modernidade, obedece a um plano, é usada como força de poder.

Na sua opinião, todas as tradições foram inventadas consciente ou inconscientemente e incorporam sempre poder, não existem tradições puras.

Mas mesmo nestas condições, as tradições também sofrem mudanças, evoluem ao longo do tempo.

Não sendo características do comportamento individual, as tradições definem-se pelo ritual e pela repetição, pela pertença a grupos, a comunidades ou colectividades.


GIN

Publicado por agineotonico às 03:13 PM

dezembro 05, 2003

A MUDAWANA

A “Mudawana” é o código do estatuto pessoal que considera que as mulheres, como seres inferiores aos homens, devem viver debaixo da sua tutela.

O rei marroquino Mohammed VI avança para o Parlamento com uma reforma deste código secular, propondo alterações significativas:

- consagração da «responsabilidade conjunta” do casal, onde se lia «obediência da esposa ao marido»;

- idade mínima para casar fixada nos 18 anos (em vez de 15 anos) e com consentimento expresso dos noivos;

- em caso de separação, a prioridade é dada à mãe, mesmo que tenha sido ela a exigir o divórcio;

- a poligamia, autorizada pela “Sharia” (lei Islâmica), fica sujeita a autorização de um tribunal e, apenas, se existir “um argumento objectivo excepcional”. Mesmo nestas circunstãncias, pode ser vetado pela mulher, obrigando o marido a declarar por escrito que nunca violará a monogamia.

Lei Rhivi, porta-voz da organização Primavera da Igualdade, considera que esta propostas “é um passo de gigante para as mulheres” marroquinas, porque os seus direitos deixam de estar dependentes do poder religioso para ficarem sob a alçada do poder político-judicial.

Marrocos coloca-se, assim, ao lado da Tunísia e do Líbano no que diz respeito aos direitos sociais nos países arabo-muçulmanos.
(in Única. Texto de Pedro Paixão)


GIN

Publicado por agineotonico às 06:04 PM | Comentários (1)