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janeiro 10, 2005

Como a comunicação social direcciona o nosso olhar sobre o mundo (2)

(ou quem define os critérios de "solidariedade necessária")
A solidariedade é fundamental.
Apoiar as vítimas do maremoto a reconstruírem os seus países e as suas vidas é um acto de solidariedade necessário. Mostra que podemos (e devemos) encarar-nos como um “mundo global”. Esta é a verdadeira “globalização” que perfilho.

A solidariedade para com as vítimas de uma catástrofe natural é inócua. Não implica um julgamento moral e político. A “origem do mal”, por muito que o possam querer atribuir a um qualquer deus ou ao homem, é a própria natureza que não dominamos. A “origem do bem”, ou da solidariedade, é bem mais complexa.
Por isso, questiono o bombardeamento e multiplicação de imagens chocantes e notícias repetidas à exaustão. Como se não existissem “ondas de terror” a banhar tantos outros países que necessitam da nossa solidariedade.
Se não podemos fazer grande coisa para evitar os desastres naturais a não ser a nossa solidariedade à posteriori, o mesmo não se pode dizer da possibilidade de sermos solidários para pôr fim aos desastres humanitários causados pela consciente mão humana.
Porque não nos metralham com as notícias dos 70 mil mortos e 1,6 milhões de desalojados de Darfur?
Porque não nos metralham com os mais de 100 mil mortos e milhões de desalojados no Iraque?
Porque não nos metralham com os mortos e desalojados da Palestina?
Porque não nos metralham com as mais de 11 milhões de crianças mortas com menos de 5 anos devido a doenças que, hoje, são facilmente tratáveis, ou das 500 mil mulheres perderam a vida devido a complicações na gravidez ou no parto, só no ano 2000?
Porque não nos metralham com os milhões de crianças a morrer vítimas da Sida, enquanto a indústria farmacêutica não permite que tenham acesso à medicação necessária?
Porque não nos metralham com os milhões de pobres, mesmo nos países ocidentais?

A solidariedade para com as vítimas de uma catástrofe natural é inócua. Não implica um julgamento moral e político. A solidariedade para com as vítimas das catástrofes causadas pelo homem obrigam-nos a questionar o próprio conceito de solidariedade.

Publicado por agineotonico às janeiro 10, 2005 04:24 PM

Comentários

Concordo completamente consigo. Aliás coloquei há dias no Aba um post no mesmo sentido - é preciso não esquecer.

Isabel Prata

Publicado por: Isabel Prata às janeiro 11, 2005 12:37 PM

My thoughts exactly. Creio que com a banalização do sofrimento das massas só nos estamos a distanciar do que é a verdadeira solidariedade. E a verdade é que os media focam as nossas atenções para o que não poderia ser evitado - uma catástrofe natural, enquanto que o que poderia ser evitado, as guerras e catástrofes causadas pelo homem não é mostrado. Pelo menos na sua extensão completa, verdadeira.

Publicado por: Marco às janeiro 10, 2005 09:51 PM