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dezembro 31, 2004

Por quem os sinos dobram

Nunca se falou tanto sobre Direitos Humanos como na segunda metade do século XX. Também nunca se cometeram de forma tão fria e sistemática tantos atropelos a esses mesmos direitos como nesse mesmo período e nestes primeiros anos do novo século. O próprio conceito de direitos humanos tem vindo a sofrer alterações, resultando num estreitamento do conceito de “humano”. Passou a haver os “humanos” e os outros, os “humanos e os terroristas”, os “humanos e os outros dos países mais pobres da África, da Ásia e da América Latina”, os "humanos e os pobres dos nossos próprios países".
Como disse John Pilger “o importante ensaio de Edward S. Herman, "A Banalidade do Mal", nunca pareceu mais adequado. "Fazer coisas terríveis de um modo organizado e sistemático repousa na 'normalização' ", escreveu Herman. "Há habitualmente uma divisão de trabalho no fazer e no racionalizar o impensável, com a brutalização e morte directa feita por um conjunto de indivíduos ... e outros a trabalharem para melhorar a tecnologia (um melhor crematório a gás, um napalm mais adesivo e com queima mais prolongada, bombas de fragmentação que penetram a carne em padrões difíceis de detectar). É função do peritos, e dos media de referência, normalizar o impensável para o público geral”.

2004 foi mais um ano difícil no nosso país e péssimo em muitos outros. Creio mesmo que dificilmente se poderá encontrar um país que possa dizer que teve um bom ano. Terminou da pior maneira. A juntar às dezenas de milhar de mortos resultantes da invasão do Iraque, da violência em Darfur/Sudão, na Palestina, em Beslan/Tcechenia, em Espanha, só para referir alguns, o sismo na Ásia deixou um rasto de morte e destruição chocantes.
Foi um acontecimento que nos confronta com a efemeridade da vida e nos dimensiona pequeninos. Foi também, sem dúvida, um bom exemplo de como são definidas as prioridades. Gastam-se recursos em material de guerra, mas não se investe nos meios que a ciência põe ao nosso dispor para garantir a segurança e o bem estar das populações.

Estou aqui a preparar-me para ir de férias uns dias. A tentar deixar uma mensagem “adequada” a esta época festiva ... e faltam-me as palavras. Talvez sentimentos de culpa por conseguir, ainda, ser feliz de vez em quando.
Talvez que as palavras de John Donne traduzam, em parte, o que sinto:
Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Publicado por agineotonico às dezembro 31, 2004 11:32 AM

Comentários

Caso tiveres o poema citado "Por quem os sinos dobram" - JOHN DONNE - favor remeter-me para o meu endereço eletrônico.
Muito grata

Publicado por: Maria da Graça às janeiro 9, 2005 11:18 PM