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dezembro 08, 2004
Equidade em Saúde e o interior do país
Segundo o relatório da OCDE sobre a Reforma do Sistema de Saúde em Portugal (Outubro de 2004), nos anos 70 apenas 40% da população tinha acesso ao Sistema de Saúde, a mortalidade infantil era o dobro da média europeia e a esperança média de vida uma das mais baixas. No pós 25 de Abril, o Sistema de Saúde teve um desenvolvimento excelente melhorando a qualidade de vida dos portugueses, reflectindo-se isso nos indicadores acima referidos – mortalidade infantil e esperança de vida – que são considerados como indicadores básicos da avaliação em saúde.
São apontadas ineficiências do sistema, mas sobre isso tentarei reflectir mais tarde. O que gostaria de referir neste post é que, neste mesmo relatório, se aponta como uma das lacunas do cumprimento dos objectivos constantes na Constituição, que consagra a “igualdade de acesso à saúde”, o esquecimento votado ao interior do país quer no que respeita ao número de profissionais de saúde, quer no que se refere aos meios aí disponíveis. Diz no relatório que: “The geographical distribution of health services is uneven. Medical facilities (hospitals and high technology equipments) are concentrated in three main urban areas (near Lisbon, Porto and Coimbra) leaving the central part of the country under-served (particularly for high-technology equipment11). With doctors and nurses concentrated on the coastal areas, human resources are in short supply elsewhere. Inadequate service levels are particularly notable in rural as well as low-income urban areas (see Annex 4 Table A1.2). Oliveira and Bevan (2003) show important geographical inequities by comparing actual resources levels with estimated needs reflected by a capitation formula including population, gender, age, and mortality”.
Contrariamente ao que seria de esperar para corrigir estas assimetrias na equidade de acesso à saúde, o Ministro vem dizer que o encerramento de algumas maternidades no interior do País está relacionado com razões clínicas e não com questões de poupança porque a falta de prática dos médicos, que apenas assistem a partos de vez em quando, pode ser prejudicial em casos complicados.
Publicado por agineotonico às dezembro 8, 2004 02:03 PM
Comentários
O mais triste, Sr. Gin, é que muito boa gente acredita no que diz o ministro. Não é por dizer o que as pessoas não querem ouvir que ele chegou lá, e até minar um SNS sem que profissionais e utentes se apercebessem (apercebam?), ou pelo menos reagissem decentemente.
Ele é muito inteligente, e começou por minar a relação de confiança entre ambos. É fácil, constata-se: não se dão condições de trabalho aos primeiros, físicas e em recursos humanos; os segundos ficam descontentes; culpa-se os primeiros por todos os males, procurando-se generalizar as excepções que se vão vendo pelas TVi's; e por aí fora. Poderia dar exemplos infinitos do insulto que esse senhor faz à inteligência dos que ainda se vão esforçando; desta vez fico-me por um, quando sai um relatório que putativamente "denuncia" o "escândalo" do que se paga em horas extraordinárias a médicos por essas urgências fora; como se não fosse a tarefeiros indiferenciados que se pagasse a maior parte desses salários, e não aos médicos de carreira; como se algum médico no seu perfeito juízo gostasse de estar a "acampar" uma vez por semana no Hospital durante 24 horas seguidas, junto de colegas mal dispostos, junto de doentes agressivos, longe da mulher e dos filhos, vítima do assassinato intelectual que é obrigarem-no a decidir casos críticos que podem resultar em linchamento na praça pública em caso de simples engano, que ninguém está, obviamente, na disposição de tolerar, ou de perdoar, sem que, sequer, lhe seja pago qualquer tipo de subsídio de risco. Quem quiser que faça um seguro de responsabilidade profissional, e pague do seu bolso (sabia que os hospitais não se responsabilizam pelos erros médicos?). Mas isso não é peixe que se venda. O do ministro é bem mais popular. E muitos compram de bom grado, como bem pode ver no site do Sr. Tilly, um indivíduo racional, vítima de todo este sistema de política de saúde asqueroso através da pessoa do seu pai, porém incapaz de discernir a real origem do problema, que é o desinvestimento no sector e a falta de seriedade na sua gestão, com ministros, secretários de estado e administradores disto e daquilo anedóticos, sucessivamente, que vão ganhar umas "massas" durante o tempo de sobrevida da legislatura a que são afins e pouco mais, excepto em casos de sorte (para o serviço em causa que eles gerem). E esses poucos, bons, acabam por nem ser reconhecidos, diluídos que estão no meio da maralha. E a ter que dar lugar a maralha semelhante de cor distinta.
Alguma vez alguém se lembrou de culpar políticos pelos numerus clausus patéticos adoptados no passado, contra sucessivos avisos da Ordem do Médicos que datam da década de oitenta, e que estão na origem da falta de meios humanos que hoje levam a que se contratem profissionais de menor qualidade dos seus países de origem? Alguém se lembra de culpar um político pelo doente que morre na enfermaria não vigiado, por falta de staff e de aparelhos de monitorização? Alguém se lembra de culpar um político pelo erro do médico após ele ter trabalhado 24 horas seguidas numa urgência, por obrigação? Alguém os culpa pela existência dessa lei criminosa, que a isso os obriga?
Voltando ao início do texto, pensando melhor, mesmo que os portugueses atentos se apercebessem do que realmente se passa, existe uma esmagadora realidade que abate todo este paleio. É que a maior parte não é atenta, nem quer saber. Até ao dia em que ficar doente, ou um dos seus. Infelizmente, sempre uma população que, numa dada altura, é relativamente minoritária.
Se fossem os doentes a decidir o destino da saúde em Portugal, teríamos pois o problema (bem) resolvido, é a minha convicção....
Publicado por: Alfredo Vieira às dezembro 9, 2004 10:28 PM