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novembro 11, 2004

Sobre a discussão entre João Tilly e Alfredo Vieira

A forma como a comunicação social publicitou o livro sobre “erro médico” de Luís Martins (Prof no ISCTE) e José Fragata (Médico), tem dado origem a grandes discussões.
Aos títulos sensacionalistas “todos os anos morrem nos hospitais portugueses três mil pessoas devido a erros cometidos pelos profissionais de saúde”, fica como de somenos importância os factos de ser «esta estimativa parte de estudos conduzidos nos EUA» adaptados à realidade nacional e de não ser esclarecido a diferença entre conceitos como “erro médico”, negligência”, “imperícia”, “dolo”, etc.
Nos comentários do Blog de João Tilly, podem ler-se verdadeiros insultos à classe médica que têm origem no desconhecimento, na falta de informação e na mítica ideia que os médicos são todos multimilionários que agem sempre de má fé com os doentes.
Esquece-se, em primeiro lugar, que o livro que relança esta importante discussão no nosso país é feito por um membro dessa classe médica que se ataca.
Já diversas vezes referi aqui no blog que a conivência com actos de negligência médica, que o espírito corporativo da Ordem dos Médicos e da classe no seu conjunto, são os grandes culpados da desconfiança dos cidadãos.
Sem dúvida que este é um debate importante. Importante também é que seja feito com seriedade e que faça parte de um conjunto de medidas como, por exemplo, a avaliação independente dos sistemas de saúde (público, SA e Privado), o controle efectivo dos cuidados prestados e o estabelecimento de seguros hospitalares que cubram os erros médicos (e não apenas a negligência).

(Leia alguns dos argumentos de Alfredo Vieira)

Alguns argumentos de Alfredo Vieira
"Só um pateta acha que os médicos são "multi-milionários".
Só um pateta vê as consequências de um sistema que expõe os médicos em condições inacreditáveis de trabalho, e depois lhes atribui a culpa de não se conseguirem duplicar, de não conseguirem ser deuses que acorrem a tudo e a todos em tempo útil.
Só um pateta atribui ao esforço e ao estudo árduo de uma vida inteira o epíteto de grunhice.
Só um pateta chama criminosos, insinua falta de respeito pela vida de outrem, por parte de quem só procura fazer o bem ...
Quando os médicos erram, às vezes, os doentes morrem. Outras demoram mais tempo a curar-se. Invariavelmente sofrem mais do que deviam. E a não ser que erre de propósito, ou que tenha a sorte de voltar atrás e corrigir a tempo, ou de alguém o fazer por ele, o erro passa-lhe despercebido. É assim com aqueles que lidam com a doença, e a morte que a todos toca.
Nas urgências temos, de forma criminosamente legislada, médicos de serviço durante um mínimo de 24 horas seguidas por semana, 47 semanas por ano(...) Nesta situação está a esmagadora maioria. Esperam concentração para o vosso caso em particular, entre 50 mais ou menos graves que ele teve/terá que ver? Depois de 12 horas de serviço? Depois de 18? Esperam que ele não erre? Esperam simpatia? (...) (sem) nunca terem na vida estado tão perto do lado mais carente, mais decadente, menos educado, menos compreensivo e mais agressivo da sociedade que ignoram.
Há erro médico? Cruzes credo, que a terra tremeu! Esses cabrões ainda por cima enganam-se! Não só se divertem a atender-nos mal, a deixar-nos secar com as nossas mazelas, (...) como ainda ... erram. Esses incompetentes, que têm o privilégio de terem sido os melhores entre os melhores nas suas turminhas, nas suas escolinhas, enganam-se? Que tiveram o privilégio de estudar 6 anos de curso em regime de reclusão, que têm o privilégio de terem que trabalhar depois do curso entre 5 a 8 anos para finalmente terem o estatuto (obrigatório) de especialistas, para finalmente não terem emprego certo (ao contrário do que suas excelências sabedoras julgam). E ainda têm a lata de se enganar ... A sociedade a dar todas as benesses deste mundo e do outro, entre cuspidelas e insultos gratuitos, entre indignações egoístas e hipócritas, e eles enganam-se. Sim, porque ninguém mais se engana (...)
Modelos de financiamento? Nem pensar, antes os modelos de não financiarmos todos por igual. Melhor gestão? Não, então e o partidozito que ganha deixaria de poder ocupar centenas de tachos!? (...) Melhor política do medicamento? Então e o nosso ministro deixava de poder relacionar-se com os grandes laboratórios internacionais, a troco só ele sabe do quê, e iria afrontar essa filantropa associação que é a ANF? Melhor controlo da produtividade, com critérios de qualidade (e nunca de quantidade)? Balelas. Fizeram um estudo (foram médicos que o fizeram, os únicos não-sacanas e que nunca se enganam, provavelmente, pensa o Zé povinho) para detectar erros, corrigir procedimentos e exigir reformas? Qual quê! Importante, importante é saber que os cabrões enganam-se! E nem perguntem porquê, que nos dá logo uma dor de cabeça que nos distrai do objectivo fundamental e construtivo (à maneira portuguesa), que é a de insultar uma classe de gente, maioritariamente ímpar no panorama merdoso da intelectualidade nacional. “Os cagões”, pensam 99% dos leitores, “a acharem-se superiores”. Ninguém pede que o reconheçam. Apenas que não chateiem com as futilidades com que gostam de os brindar gratuitamente
".

Publicado por agineotonico às novembro 11, 2004 04:36 PM

Comentários

Já agora tome lá também um argumento meu:

Um dia virá em que os médicos que deixam morrer as pessoas por ostracismo sejam presos.
Todos os dias há gente deixada morrer nos Hospitais portugueses. Histórias de visitas repetidas às urgencias pelo mesmo doente até que este morre, há milhares e milhares.
Não é excepção nenhuma, infelizmente!
Mais do que você, pelos visto, pode imaginar.
Ainda bem, porque então é sinal que nunca esteve repetidamente numa Urgência.

Porque se esse dia não chegar, tenho a certeza que alguns médicos vão começar a ser incomodados pelas famílias das vítimas.
É que o tempo em que as pessoas se calavam a tudo já lá vai.

É melhor, a todos os níveis, que os médicos negligentes respondam pelos seus crimes no Tribunal, quanto a mim.
O resto é treta.

Ah! E não se esqueça de meter uma cunha se algum familiar seu entrar num Hospital! - conselho de amigo!!!

João Tilly

Publicado por: João Tilly às novembro 16, 2004 07:49 AM

Lamento estar de serviço das 20h00 de agora até às 20h00 de amanhã.
Prometo leitura atenta e comentário, para essa altura.
Seja como for, desde já parabéns pela serenidade e empatia demonstrada.

Publicado por: Alfredo Vieira às novembro 11, 2004 07:18 PM