« QUE DEUS NOS AJUDE!!! | Entrada | A crise da Europa »
novembro 03, 2004
Necessidade de respostas alternativas
Mas seria interessante perceber porque se assiste a uma viragem à esquerda nos países da América do Sul.
De facto, enquanto em países Europeus estiveram no poder regimes fascistas, a esquerda tinha um projecto natural que unia esforços na luta pela liberdade.
Assim que as democracias se instalaram, esgotada que estava a ditadura e correspondendo a uma necessidade do poder económico, vendeu-se a ideia de que agora não seria necessário envolvermo-nos em movimentos associativos de cidadãos porque os nossos representantes democraticamente eleitos velariam pelos nossos interesses.
No que a Portugal se refere o abandono foi total.
As gerações que experienciaram a guerra colonial, a repressão, a ausência de liberdade de expressão e de associação, o atraso cultural e científico, depositaram a arma mais importante da democracia: a participação cidadã na defesa dos direitos sociais e humanos. Os mesmos direitos que agora vão sendo destruídos por imposição do poder económico que manda no poder político. As gerações pós 25 de Abril acreditam, talvez, não ser possível voltar a viver-se sem direito à palavra. Acreditam que o caminho é apenas o parlamentar sem que seja necessário envolver-se para além do voto.
A Constituição Europeia, que a direita e o PS de Sócrates apelam ao voto no “sim”, é a confirmação da destruição das democracias europeias que se caracterizavam pelo apoio ao desenvolvimento de políticas sociais igualitárias.
A Europa vota a sua Constituição neoliberal com o apoio dos partidos da alternância.
Bush ganha as eleições nos EUA, mas não é apenas lá que as consequências vão ser demolidoras.
As democracias neoliberais são falsas democracias, são autistas para com os direitos sociais e humanos e tenderão a muscular-se, a tornar-se mais violentas, quando a generalização das desigualdades levantar grande contestação.
Assim como se esgotou, em dado momento, a capacidade para manter regimes fascistas e ditatoriais e se fez recurso à democracia, o poder económico pode considerar que se esgotou o modelo democrático e pode fazer recurso a novos (velhos) modelos repressivos.
São já visíveis alguns passos nesse sentido. A discussão em torno da liberdade de imprensa, da sua concentração nas mãos do poder económico, é um dado a ter em conta.
A privatização de sistemas e bens até hoje públicos, a cultura de massas das televisões e o desinvestimento na educação pública são outros exemplos.
O discurso de que o caminho para onde caminhamos é irreversível e que obriga a que se reequacionem as políticas sociais (leia-se: se acabe com elas), que o desemprego é uma circunstância normal e que normal é também a sua generalização, que os terroristas são, para além dos óbvios, todos os que discordam da posição que se pretende unânime, tem de encontrar respostas alternativas.
Publicado por agineotonico às novembro 3, 2004 10:03 PM
Comentários
Estamos em sintonia, Gin. Também penso que devemos começar a olhar para a América Latina com mais atenção. Fiz um post há dias sobre isso.
Para além de tudo o que dizes, recordo sempre as palavras de Goering, general nazi que dizia: "Proteste ou não, o povo pode sempre ser levado a aceitar a vontade dos seus dirigentes." Referia-se à guerra, claro. Mas isto é válido para tudo, em política, já que que também ela é entendida como mera gestão de um permanente conflito (logo, confronto) de interesses.
O medo, e não apenas nos EUA, tornou-se um óptimo veículo de propagação ideológica. Instila-se um sentimento de insegurança generalizada nas populações e o resto aparece naturalmente por acréscimo. Passam a ser os povos os primeiros a exigir dos governantes maior policiamento e um regresso aos valores "do passado". Nem são necessárias explicações adicionais por parte dos responsáveis políticos quanto às políticas domésticas de retração do Estado de Providência. Isso transforma-se numa consequência "natural" do mundo visto em permanente estado de guerra. Bem como o desemprego, etc. Ficaremos reduzidos a uma irreparável dicotomia entre vencedores e vencidos.
abraço
o uno e o multiplo
Publicado por: o uno e o múltiplo às novembro 4, 2004 12:39 AM