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outubro 22, 2004

Aleida Guevara

"Quando li Notas de Viaje (...) identifiquei-me imediatamente com este homem que narrava as suas aventuras de maneira tão espontânea. À medida que avançava na leitura, comecei a descobrir que o escritor era o meu pai.
Houve momentos em que tomei o lugar do seu companheiro de viagem na motorizada e me agarrei às costas do meu pai, seguindo com ele pelas montanhas e à voltados lagos. Admito que houve pontos em que parei de ler, sobretudo quando descreve tão graficamente coisas de que eu nunca falaria. Mas, quando o faz, revela mais uma vez quão honesto e liberto de convenções conseguia ser. Para dizer a verdade, quanto mais leio, mais gosto de estar com o rapaz que o meu pai foi
".
(in Visão)

ALEIDA GUEVARA*

Na motorizada do meu pai
QANDO LI Notas de Viaje [os Diários de Che Guevara que deram origem ao filme de Walter Salles agora em exibição nas salas portuguesas] pela primeira vez, era apenas um molho de folhas escritas à máquina.
Mas identifiquei-me imediatamente com este homem que narrava as suas aventuras de maneira tão espontânea. À medida que avançava na leitura, comecei a descobrir que o escritor era o meu pai.
Houve momentos em que tomei o lugar do seu companheiro de viagem na motorizada e me agarrei às costas do meu pai, seguindo com ele pelas montanhas e à voltados lagos. Admito que houve pontos em que parei de ler, sobretudo quando descreve tão graficamente coisas de que eu nunca falaria. Mas, quando o faz, revela mais uma vez quão honesto e liberto de convenções conseguia ser. Para dizer a verdade, quanto mais leio, mais gosto de estar com o rapaz que o meu pai foi.
Fiquei a conhecer melhor o jovem Ernesto Che Guevara: o rapaz de 23 anos que deixou a Argentina com uma ânsia de aventura e sonhos dos grandes actos que iria praticar e que, ao descobrir a realidade do nosso continente, continuou a amadurecer como ser humano e a desenvolver-se como ser social. A pouco e pouco, vemos como os seus sonhos e ambições mudaram.
O jovem que nos faz sorrir no início com os seus absurdos e loucuras toma-se cada vez mais sensível à medida que nos fala do complexo mundo indígena da América Latina, a pobreza do seu povo e exploração a que está sujeito. Apesar de tudo isso, nunca perde o sentido de humor, que aliás se toma mais fino e mais subtil. O meu pai, «esse, aquele que fui», como se identifica, mostra-nos uma América Latina que poucos de nós conhecem, descrevendo as suas paisagens com palavras que pintam cada imagem e atingem os nossos sentidos, de modo que podemos ver aquilo em que os seus olhos pousam.
Cresce a sua tomada de consciência de que o que o povo pobre precisa não é tanto do seu conhecimento científico como médico, mas antes da sua força e persistência no sentido de provocar a mudança social que lhe permita recuperar a dignidade que lhes foi tirada e espezinhada durante séculos. Com a sua sede de conhecimento e a sua enorme capacidade de amar, mostra-nos como a realidade, quando bem interpretada, pode embeber um ser humano a ponto de alterar a sua maneira de pensar.
O que mais recordo é a grande capacidade de amar do meu pai. Encaro-me muitas vezes como um acidente genético; tive a honra e o privilégio de ser filha de um homem e de uma mulher muito especiais. E também sou um produto da Revolução Cubana. Quando era nova, a imagem do meu pai influenciou-me, mas viria a escolher medicina como forma de estar mais perto do meu povo. Também trabalhei como médica na Nicarágua, em Angola e no Equador.
Somos felizes como família quando a imagem do meu pai leva as pessoas a quererem saber mais sobre o seu pensamento, mas muitas vezes a comercialização parece-nos uma falta de respeito por quem ele foi e pelo que ele defendeu.
Desde os anos 80 que nós - a família do Che e outros - trabalhamos nestes manuscritos inéditos. Foram conservados como parte do seu arquivo pessoal, e em grande parte foram e continuam a ser zelosamente guardados pela minha mãe. Para publicar alguma coisa escrita por ele mas que ele próprio não escreveu com a intenção de publicar - como acontece com as notas que viriam a ser os Diários de Che Guevara - é necessário muito trabalho de edição. Não podemos omitir texto, mas ao mesmo tempo não podemos ter a certeza absoluta que ele daria autorização para a publicação do texto tal como foi originalmente escrito. Daí que tenhamos assumido o compromisso de editar o que ele escreveu sem alterar o que quis dizer - uma tarefa muito difícil.
Estas notas de viagem foram publicadas por uma editora cubana pela primeira vez em 1993. Dos muitos livros que o meu pai escreveu, é um dos meus preferidos, porque coloca o jovem Ernesto mais perto dos jovens do mundo actual - o que é o mais importante - mostrando como as pessoas podem mudar se forem sensíveis ao que as rodeia.
Embora haja apenas uma cópia do filme Diários de Che Guevara, de Walter Salles, na ilha, os cubanos que o viram dizem bem dele. É divertido, terno e profundo.
Embora já não vivamos nos anos 50 e 60, continuam infelizmente a existir em muitas partes do nosso continente e do mundo as condições que provocaram uma profunda mudança no jovem Che Guevara, e com um impacto cada vez mais brutal. O filme e o livro tomaram-se tão populares porque a sua força e ternura são um modelo para o povo que precisamos nestes tempos? Acho que sim, e tenho orgulho em viver entre gente que não só o ama, como põe em prática o seu desejo de criar um mundo que seja mais justo.
EU TINHA APENAS 6 ANOS quando o meu pai morreu, há 37 anos, de modo que tenho poucas recordações. Só cheguei a conhecer o meu pai quando cresci. A minha mãe, Aleija Marcha, amou-o profundamente, e partilhou os seus ideais, que passou aos filhos.

VISÃO 14 DE OUTUBRO DE 2004

Exclusivo The New York Times/VISÃO
'Filha mais velha de Che Guevara e Aleida March. É pediatra e autora do livro/documentário Cbarel, Veneluela y Ia Nueva América Latina

Publicado por agineotonico às outubro 22, 2004 03:16 PM