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setembro 22, 2004

Ataque cerrado à Escola Pública (2)

A par de outros ataques à “coisa pública”, também a educação não escapa. Estão aí, para nos mostrar isso, os discursos do poder e daqueles que por este são convidados, através da comunicação social, para dar as suas “sábias” opiniões nos debates televisivos.

Passámos a assistir a um ataque cerrado à Escola Pública e aos muitos professores que nela trabalham empenhadamente.
Ouvimos Fátima Bonifácio defender directores escolares nomeados, o fim das práticas pedagógicas utilizadas e o retorno à figura do professor autocrático. Secundando estas ideias, João Benárd da Costa no Público em “Antigamente, a escola ... II”, clarifica: “... nunca curso nenhum lhe correu tão bem ... como não conseguiria se se pusesse a trabalhar em “grupos”, a adular os néscios ou a fingir que eram eles quem deviam ensinar”.
Ficamos a saber que ensinar a trabalhar em grupo, valorizar as produções dos alunos, alicerçar a construção do saber sobre o respeito pelas diferenças individuais e o já adquirido e o estimular a autonomia dos alunos, são uma alarvice da modernidade, que os alunos devem, desde a mais tenra idade, ficar sentados, imobilizados e virados para o professor, que lhes dirá “eu sei tudo e vocês não passam de uns estúpidos que nada sabem e nada valem”. Talvez voltar à utilização dos castigos corporais também ajudasse.

Para maior espanto, ouvimos Fátima Bonifácio, que inúmeras vezes apareceu nas TVs a dizer sempre o mesmo, dizer que nas escolas privadas não se assiste a esta falta de organização, a esta dificuldade de integração dos alunos. Não sei em que planeta vive esta senhora ou em que condomínio fechado, mas o que sei é que ela não tem a mais leve ideia sobre o que é a Escola Pública, sobre as características da sua população escolar e os problemas que, hoje, enfrentam os professores.
Deram a palavra a uma pessoa que está mais distante deste problema que o comum dos mortais que tenha filhos numa escola pública.

Publicado por agineotonico às setembro 22, 2004 04:44 PM

Comentários

Já li este post duas ou três vezes mas tenho-me abstido de fazer comentários. É que, como dizia o "outro" estou farta de dar para este peditório e cansada de me ouvir em dissertações do género. Tenho dois filhos em idade escolar, já fui professora e conheço bem a natureza do nosso ensino e toda a sua evolução. É certo que toda a experiência pessoal é limitada mas não deixa de nos oferecer indicadores sintomáticos do estado geral das coisas e esses, garanto-te, são bem preocupantes.
Infelizmente, e era isto que te queria dizer, o que aqui muito bem denuncias como uma perversão dos pilares fundamentais de qualquer sistema educativo é hoje aplaudido por uma GRANDE parte de professores e, espantem-se, encarregados de educação.
As escolas caminham a uma velocidade assustadora para "centros de detenção" de "objectos humanos" onde a figura do professor autocrático e totalitarista se torna uma realidade cada vez mais evidente. Mais: torna-se uma exigência da própria comunidade e, portanto, uma realidade consentida e permitida pela esmagadora maioria dos encarregados de educação.
O pior é que a breve trecho também esses centros de detenção terão de se tornar rentáveis e o gestor escolar (porque a ideia das nomeações traz implícita a de um gestor escolar) terá como missão rentabilizar o espaço, transformando-o numa espécie de "mercado livre". Falo de publicidade, aluguer de espaços, patrocínios, claro.
Esta questão, naturalmente, é demasiado complexa para se esgotar aqui.
Contudo, seria bom pensarmos até que ponto esta ideologia "securitária" (esta visão do outro como inimigo,de um modo geral, ou do aluno, pai ou professor como inimigo, de um modo particular ) não nos afasta de uma avaliação justa do problema e não nos encerra em lógicas circulares que acabam, apenas, por nos sufocar no medo, na hostilidade e na total ausência de liberdade.

Este é um "discurso" que (porque pertenço a uma associação de pais) tenho "imposto" a vários professores, meus ex-colegas. Respondem-me com olhos de espanto. Defeito meu: gosto do mundo num ponto de vista holista.

abraço
o uno e o múltiplo

Publicado por: o uno e o múltiplo às setembro 25, 2004 04:36 AM