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julho 05, 2004
Scolari: uma lição de cidadania


Fui ver o final do Euro 2004 neste cantinho acima e escrevo estas palavras depois de chegar a casa, em Lisboa.
Parti a meio da manhã. Quase todos os carros com que me cruzei levavam bandeiras e apitavam uns para os outros.
Talvez por isso, na viagem de regresso reparei que os carros com que me cruzei não traziam as bandeiras. Sei que é tarde, mas mesmo assim não pude deixar de pensar que embora não partilhasse do pessimismo de alguns depois do 1º jogo com a Grécia, tal como muitos portugueses, não pensei que Portugal passasse do 2º jogo.
Posso dizer que tudo o que veio depois considerei como ganho.
Mas futebol à parte, com ele veio muita coisa que me parece importante.
Fiquei a saber, através de uma reportagem, que Scolari no Brasil não se limitou a ser um treinador da selecção brasileira. Ele assumiu-se como cidadão subsidiando e promovendo a angariação de fundos para diversas associações, para o financiamento de hospitais, etc.
Em Portugal, e mesmo podendo ter achado excessivo, Scolari arregimentou o país inteiro em torno da selecção nacional.
Depois do jogo da final, Scolari surpreende-nos com um discurso que nenhum político português da oposição, infelizmente, se lembrou de fazer. Disse ele, trazendo-nos ao país real, que os portugueses não tinham razão para desmobilizar porque há muita coisa importante para mudar, que há muita coisa que precisa mudar para melhorar a vida de todos nós.
Scolari dá-nos um exemplo de cidadania e de presença de espírito, ao mostrar o valor relativo de certas coisas (este campeonato) quando confrontadas com outras (a vida real dos portugueses, as suas dificuldades).
Podemos questioná-lo como treinador da selecção, mas dificilmente podemos questionar o seu bom senso, a sua dedicação e, acima de tudo, o seu sentido de cidadania que apela à mobilização dos portugueses para aquilo que é verdadeiramente importante.
Fiquei a pensar nos políticos da oposição, nos políticos de esquerda que se encostaram à vida parlamentar e têm tanto desprezo pelas pessoas como os de direita. Fiquei a pensar que uns e outros apenas se lembram da nossa existência quando vamos a votos, que a esquerda portuguesa perdeu capacidade mobilizadora e canta vitória nos resultados estatísticos eleitorais sem que isso corresponda a um verdadeiro ganho de eleitorado. Por isso assistimos não a eleições ganhas, mas a eleições perdidas. Por isso assistimos à alternância dos grandes partidos. Por isso assistimos ao aparecimento de representação parlamentar de pequenos partidos que desaparecem mais tarde ou mais cedo.
Não consigo nomear o nome de alguém aqui em Portugal, um nome apenas, que congregue em si esta contribuição pessoal e solidária para com a sociedade, a responsabilidade pelo trabalho, a capacidade mobilizadora e a visão de que as coisas realmente importantes que precisam ser mudadas só o serão se nós nos mantivermos activos em torno de objectivos concretos (as tantas coisas que precisam ser mudadas para que tenhamos uma vida melhor).
Foi uma grande lição ...
Publicado por agineotonico às julho 5, 2004 02:27 AM
Comentários
SÓ PRA DIZER QUE TENHO UM PIANO IGUAL AO SEU...
Publicado por: valeria às julho 5, 2004 06:15 AM
É politica. Saber dar a volta a um resultado negativo, apelando ao povo para aplaudir. Com a festa e um pouco de sorte ninguém reparou que a equipa estava a mesma.
Publicado por: cris às julho 5, 2004 04:55 AM