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julho 13, 2004
Os “cidadãos” são agora uma massa acrítica e desmobilizada
Este é o comentário que coloquei no Barnabé a propósito de um post do Daniel Oliveira.
Decidi colocá-lo aqui porque penso ser um bom ponto de partida para uma (espero) discussão política interessante.
Penso que já foram levantadas (com as devidas distâncias por Cristina, Maria da Fonte II, Viana, João Miguel Almeida) muitas das questões que considero importantes em relação à posição assumida por Daniel Oliveira.
A declaração inicial de Daniel Oliveira definindo-se como “não marxista” tem a justa resposta nas palavras de Cristina quando questiona “como é possível ... querer mudar seja o que for sem pôr em causa os dois pressupostos fundamentais do capitalismo, a saber: a acumulação e a propriedade?”. Nesta questão, pode dizer-se, está um dos muitos contributos de Marx.. Na verdade, parece-me que numa altura pautada pela mais completa ausência de referências ideológicas de esquerda, em que se desmoronam as formas tradicionais de organização local e em que o “capitalismo entra na era globalizada”, “voltar a Marx”, com capacidade crítica, pode ser uma forma de encontrar fundamentos que permitam construir alternativas onde ancorar a luta política. Mas, como diz Maria da Fonte II, os conceitos ainda interessam, mas são para já acessórios.
A ideia da tomada do poder para resolver os problemas dos cidadãos que defende Daniel Oliveira, tomada do poder encarada na perspectiva em que se enquadra este post, é de uma ingenuidade que me surpreendeu. Já nem me atrevo a considerar esta afirmação de outro ponto de vista, porque respeito bastante o autor. O poder económico não é democrata vista ele as roupagens que vestir, nem se compadece voluntariamente com as questões sociais. Ele tem de ser pressionado.
A ausência de espaços públicos que congreguem cidadãos das mais diversas tendências que façam pressão e oposição ao poder e às políticas neoliberais, produz governos cada vez mais arrogantes e mais surdos. Os “cidadãos” são agora uma massa acrítica e desmobilizada que vê esta investida política de direita como uma necessidade de subserviência às instituições internacionais e à globalização nos moldes em que decorre.
No fundo a esquerda submete-se, não vê alternativas, nem parece ter forças nem visão para as construir. É este facto que produz as ideias de Daniel Oliveira.
Mas neste post aparece ainda o eco de outra “desorientação” actual, a saber: qual o papel do Estado.
É que a discussão do papel do Estado tem vindo a ser feita por economistas da direita à esquerda, resultando na (conveniente) visão de Estado enquanto instrumento de realização e não enquanto instrumento de poder que é. Assim, a orientação da política económica é positiva (de esquerda) ou negativa (de direita). Esquece-se (ou faz-se por isso) que o Estado é um instrumento de poder a que aspiram grupos socais determinados e que há um jogo de forças permanente entre eles.
Convém aqui manter o discurso da realização, da competência técnica, da optimização dos recursos e por aí fora, e fugir do debate político de fundo. Convém manter a discussão ao nível da política dos técnicos que se caracteriza por desviar o discurso “da política” para um discurso que se faz crer racional e objectivo sobre a gestão administrativa (como se isso não implicasse opções políticas) que se reflectem na nossa vida e nos princípios democráticos. Esta ocultação das “armas de destruição maciça” dos direitos sociais e da democracia é conseguida centrando o debate no rigor técnico, na flexibilização, no ajustamento, etc. e não contribui para o bem comum nem se compromete com o futuro.
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Publicado por agineotonico às julho 13, 2004 11:54 PM