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junho 13, 2004
Procuramos cura para as nossas doenças ou para a nossa vulnerabilidade humana?

O desenvolvimento da ciência e tecnologia médica tem vindo a testar os limites da medicina sem que paremos para reflectir se a evolução tecnológica é, muitas vezes, a solução mais adequada para cada caso. A ideia generalizada que a medicina domina todas as possibilidades, que as tecnologias mais modernas tudo podem resolver, aumenta a pressão sobre os médicos e leva-os a tratamentos invasivos dolorosos para o ser humano, mesmo quando não há esperança de recuperação, mesmo quando a vida tornada vegetativa não vale a pena ser vivida, mesmo quando o paciente é submetido a indignidade e a sua família a grande sofrimento. A esta pressão não é alheia a exigência do poder económico para quem tudo justifica a necessidade de consumo.
A capacidade tecnológica para salvar a vida de prematuros, por exemplo, é notável. Contudo, o que não é dito é que, em muitos casos, os riscos de danos cerebrais e outros são muito elevados, os riscos de fracasso altíssimos, a sobrevida muitas vezes curta e o sofrimento provocado à criança muito prolongado. Este é um dos casos em que a pressão sobre os médicos sobe exponencialmente e em que as famílias/pais depositam expectativas pouco reais sobre a medicina.
Sem dúvida que o aperfeiçoamento tecnológico tem vindo a permitir a utilização de técnicas médicas em situações que antes eram considerados como “casos perdidos”, mas isto tem o reverso da medalha se não pensarmos em termos de quais os limites.
As pessoas aumentaram as expectativas e quando falham as soluções tecnológicas ficam frustadas, acusam os médicos de erro e de negligência. Não entendem que o problema não é apenas tecnológico. Por outro lado, os médicos pressionados não se questionam sobre os limites da sua intervenção, sentem como fracasso a prova da nossa mortalidade e a sua impossibilidade de ascender à categoria de deuses.
A ausência de diálogo médico/paciente/família é mais que evidente.
A medicina não foge à visão consumista do mundo onde se pensa que tudo se compra e tudo se vende, mesmo a nossa dignidade e a dos outros. Não nos conformamos com a nossa natureza humana, aspiramos ser deuses com imagem de marca - a imortalidade.
A tecnologia, os dividendos de alguns que resultam deste apelo ao consumismo, empurra-nos para uma arrogância sem limites, para uma falsa autoridade que não vê limitações nesta procura de “progresso” sem qualquer humanidade.
Acreditar que a ciência tem ou virá a ter todas as respostas para as nossas debilidades, é fugir à realidade da nossa condição humana, de seres falíveis, é vender a ideia que a nossa condição resulta de ajustes tecnológicos e, por isso, tudo é possível.
E no entanto é curioso verificar que enquanto temos esta relação com a medicina e com o avanço das tecnologias vamos, por outro lado e também em nome do progresso, destruindo o ambiente e criando condições de vida que exigem um esforço tremendo de sobrevivência quer sob o ponto de vista económico, quer emocional que, como se sabe, reduz a qualidade e o tempo médio de esperança de vida.
Publicado por agineotonico às junho 13, 2004 01:01 PM