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junho 09, 2004
Monólogo sobre a Morte
Sousa Franco morreu esta manhã. Era-me uma figura simpática pelo que muitos consideram como o seu “politicamente incorrecto”. A sua imagem, a forma como expunha as suas ideias transpirava qualidades que admiro cada vez mais – simplicidade e franqueza. Ele conciliava, ao contrário da maioria das nossas figuras públicas e mesmo das pessoas comuns, estas características de simplicidade e franqueza na exposição e defesa das suas opções políticas, com um saber sério atestado pelos seus mais de 300 trabalhos na área das finanças públicas, do direito económico e do direito europeu. Não se trata de concordar ou não com as suas opções, trata-se de o ver como um parceiro de luta ou como um adversário inteligente. Acima de tudo trata-se de o ver como um ser humano com valor e, no meu caso concreto, como um ser humano com as qualidades que referi.
Por isso, mas não só, me chocou tanto os insultos grosseiros que lhe foram feitos. Insultos que foram dirigidos à sua aparência física e não às suas ideias e opções políticas.
É certo que estamos numa sociedade em que se valoriza acima de tudo as aparências e Sousa Franco era, sem qualquer dúvida, uma figura única.
Quem acompanha este blog sabe que tenho criticado sistematicamente esta valorização do “parecer” em detrimento do “saber ser”.
Talvez porque eu própria sou assim - “politicamente incorrecta” a defender as minhas ideias “em directo”, privilegiando as relações humanas, as particularidades, os defeitos, as capacidades e os méritos individuais acima de tudo. Isso tem custos pessoais grandes neste jogo do parecer, do ser politicamente correcto, do fazer alinhar as ideias pelas mesmas lógicas, do aparentar o que se não é na realidade, do subjugar a dignidade pessoal à luta para se perseguir essa imagem estereotipada que nos vendem ...
A morte confronta-nos com a única verdade que dou como adquirida – a sua certeza e irreversibilidade, a efemeridade da vida.
Somos confrontados com os limites dos nossos seres físicos e dos nossos saberes. Somos confrontados com a nossa incapacidade para dominar a nossa própria natureza, a nossa inevitável mortalidade e, isso, coloca, ou deveria colocar, como valor humano primeiro, o valor da vida humana.
A consciência da nossa condição de mortais deveria levar-nos a ser mais solidários, acho eu, a entender que sendo a vida tão tremenda e assustadoramente efémera não faz qualquer sentido esgotar todas as nossas energias num jogo que, para além de muitas vezes não nos dar grande felicidade e satisfação, traz sofrimento a outros seres humanos.
O valor que atribuímos à vida humana expressa-se pelas políticas que pomos em marcha e que têm impactos sociais, ou que apoiamos de uma maneira ou de outra que sejam postas em marcha, mas também se expressa pela forma como olhamos o que se passa no mundo e nele vivemos, pela forma como nos relacionamos ou usamos as pessoas que se cruzam connosco ao longo da vida. A vida concretiza-se nas pessoas individuais e, esse, é o seu valor, esse é o dado que exige a sua defesa e respeito.
A morte de pessoas de quem gostamos deixa-nos sempre num extremo de incompreensão e, muitas vezes, leva-nos a procurar causas ou culpados que a justifiquem. São actos que fazem parte, acho eu, de um processo doloroso de luto. Há um vazio, porque esses seres são únicos para alguém, fazem sentido para alguém e isso exige que sejamos solidários sob o ponto de vista humano.
Por isso há tanta coisa que, para mim, deixou de fazer qualquer sentido ...
Publicado por agineotonico às junho 9, 2004 04:32 PM
Comentários
Olá, passei por cá. Já estoua elaborar a resposta ao teu mail.
Gostei do teu cantinho!!
Publicado por: Pintelho às junho 10, 2004 06:20 PM