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junho 11, 2004

EDUCAÇÃO VERSUS INSTRUÇÃO

O Director do New York Times recebeu certa vez uma carta iniciada assim:
«Caro professor, sou um sobrevivente de um campo de concentração. Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver: câmaras de gás construídas por engenheiros doutorados; adolescentes envenenados por físicos eruditos; crianças assassinadas por enfermeiras diplomadas; mulheres e bebés queimados por bacharéis e licenciados. Por isso desconfio da educação.»

Depois disto não é difícil partilhar dessa desconfiança. Mas será efectivamente a educação que o autor da carta põe em causa? Por vezes acontece socorrermo-nos de palavras com um sentido original muito distinto do conceito que pretendemos evocar. Utilizamo-las tão somente porque foram consagradas pelo uso (incorrecto, é certo). Mas o pior acontece quando é o próprio conceito a ser confundido. Neste domínio está a educação versus instrução. Bastará estarmos atentos ao trânsito de uma qualquer rua para concluirmos com toda a naturalidade que “instrução” (a qual todos os condutores receberam) e “educação” são de facto coisas distintas, ainda que quotidianamente usadas num sentido único. Do mesmo modo a nossa sociedade tem confundido informação com formação e conhecimento com sabedoria. É inegável a crescente valorização de algo que se tem designado por “educação”. No entanto, o que na realidade se verifica é uma busca frenética do êxito académico com o intuito de assegurar uma futura estabilidade social e financeira, este sim, o objectivo supremo.

Educação = Instrução
Se bem que ferida por excessos, defeitos e desequilíbrios e ainda distorcida pela visão igualmente deturpada que durante muitos anos se teve da criança, a “educação” sempre objectivou mais do que simples instrução. Numa clara distinção dos dois conceitos João Coménio, o maior pedagogo seiscentista, defendeu a ideia que a escola deveria proporcionar instrução e educação. Por “instrução” Coménio entendia «o conhecimento pleno das coisas, das artes e das línguas» b); doutra forma, “educar” corresponderia à acção de «providenciar para que o espírito dos jovens seja preservado das corruptelas do mundo (...)»c).
De facto, essa distinção entre “instrução” e “educação” permanece teoricamente nos nossos dias. Nos dicionários pode ler-se como significados de “instrução” a «educação literária e científica» ou «conhecimentos adquiridos»; enquanto “educação” é definida como o «processo que visa o desenvolvimento harmonioso do homem nos seus aspectos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade.» No entanto a confusão tem existido na prática. Aqui os dois conceitos mesclaram-se e, salvo honrosas excepções, as escolas preocupam-se maioritariamente com a instrução (rotulada de “educação”). Potenciada por vários factores de ordem social, a crescente preocupação por uma formação intelectual tem originado uma inequívoca deformação moral. Fala-se hoje em “crise de valores” bem espelhada na cavalgada da delinquência ou no ressurgimento da xenofobia. Os pais, ocupados na absorvente vida profissional ou retidos nas demoradas filas de trânsito, revelam-se manietados para poderem acompanhar os seus filhos na tarefa da educação harmoniosa das suas diferentes facetas. Estes acabam por ficar entregues a si mesmos tendo como formadores a TV, os jogos individuais e, nalguns casos, os colegas. Para além de se socializarem sozinhos e de não desenvolverem competências relacionais, vão absorvendo os valores transmitidos pela TV ou por amigos da mesma idade. Tal como há século e meio as senhoras da alta sociedade transferiam para as amas a “tarefa” de amamentar os seus filhos, também hoje alguns pais pouco atentos e outros impedidos pelas contingências das suas vidas profissionais e sociais, transferem para a Escola a responsabilidade pela educação moral e cívica dos seus filhos. Numa primeira fase a Escola tenta corresponder ao que dela se espera integrando nos seus currículos a disciplina de “Educação Moral e Religiosa”, “Desenvolvimento Pessoal e Social” ou “Educação para a Cidadania” preconizada na eminente reforma curricular. Porém, tal revela-se insuficiente já que nunca a formação será somente obra da informação. Lembremo-nos que conhecer a obrigatoriedade de parar a um STOP não garante a sua observância. Há um trabalho mais amplo e concertado a realizar entre todos os agentes educativos. Daí que concorde na exigência da Escola relativamente ao envolvimento e co-responsabilidade dos Pais na tarefa de educar. Não se pode permitir que a criança continue a receber uma aprendizagem desconexa, ou seja, importa evitar que o papel formador da Escola, o do lar e, tanto quanto possível, o de outros agentes educativos (como a TV ou o círculo de amigos) tenham orientações diferentes e que em cada um as vivências sejam igualmente distintas.

Professores e Pais – dois agentes, um mesmo propósito
Um apelo é feito no duplo sentido.
Professores, recordem as palavras daquele sobrevivente do campo de concentração. Vão para lá da instrução. O referido autor terminava a sua carta escrevendo: «(...) ajudem os vossos alunos a serem humanos. Que os vossos esforços nunca possam produzir monstros instruídos, psicopatas competentes, Eichmanns educados. A leitura, a escrita, a aritmética só são importantes se tornarem as nossas crianças mais humanas».
Pais, invistam na vossa maior riqueza: os vossos próprios filhos. Brinquedo algum, por mais caro que seja, ou mesmo o mais conceituado e publicitado par de calças poderá de alguma forma compensar a vossa ausência. Melhores dividendos advirão no seu acompanhamento do que no sacrifício feito para corresponder às necessidades materiais que manifestam, as quais são, regra geral, criadas artificialmente pela publicidade. Passem tempo com eles garantindo a vivência de determinados valores. E não esperem que seja um mau comportamento deles a levar-vos à escola. Estejam lá antes disso. Falem com os professores, cooperem; o trabalho feito a dois será sem dúvida mais fácil e frutífero.
Pais e professores, não se conformem com a mediocridade. «As nossas ideias acerca da educação têm sido demasiadamente acanhadas e baixas. Há a necessidade de um escopo mais amplo, de um objectivo mais elevado. A verdadeira educação significa mais do que a prossecução de um certo curso de estudos, significa mais do que a preparação para a vida presente. Ela visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem».

(Jorge Branquinho Lopes)

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Publicado por agineotonico às junho 11, 2004 04:33 PM

Comentários

O seu texto é do melhor que njá li...e olhe que já ando nestas andanças à quinze anos....como "professor de ginástica" sinto-me capaz e livre para desenvolver o humano dos alunos..já que não os tenho que +preparar para fazerem face à ditadura dos exames...

Publicado por: miguel sousa às junho 11, 2004 08:09 PM

No entanto,o que na realidade se verifica é uma busca frenética do éxito académico com o intuito de mais tarde assegurar uma futura estabilidade social e financeira.Por favor digan-me qual é a diferen-ça entre nos humanos, e as hiénes.

Publicado por: calhordus às junho 11, 2004 06:42 PM