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junho 13, 2004

ABSTENÇÃO E ABSTENCIONISTAS


Em relação ao post e comentário de João Tilly sobre a maioria absoluta dos abstencionistas gostaria de dizer o seguinte:
1) a abstenção não é um voto. Na situação actual, porque pode haver situações em que se justifique, o voto exprime uma posição. Seja ele em qualquer um dos partidos concorrentes, seja em branco, o voto expresso nas mesas eleitorais é a voz dos cidadãos participantes;
2) a abstenção, no actual estado das coisas, mistura uma série de posições mas é marcadamente "um não me interessa";
3) tentar "ler" a abstenção como um voto expresso e dar-lhe o nome de maioria absoluta é uma tentativa de aproveitamento quer dos que não se interessam, quer dos que se sabe "estarem a mais" nos cadernos eleitorais por deficiência de regularização dos mesmos.

Publicado por agineotonico às junho 13, 2004 01:41 PM

Comentários

ABSTENÇÃO AO PODER

Em abono da verdade não me parece justa a afirmação de que os portugueses (abstracção que remete para o conceito de “homem médio” que um dia, assim o espero, alguém me explicará o que significa) não se procurem informar sobre o que de mais relevante acontece no mundo. Porém, dita a experiência que chegado este mesmo homem médio a casa, depois de um cansativo dia de trabalho, carrega no botãozinho da janela mágica, refastela-se no sofá durante os minutos em que se prepara psicologicamente para a confecção do jantar, sintoniza o tempo de antena do governo a que as televisões insistem, vá lá saber-se porquê, em chamar noticiários, resiste estoicamente às barbaridades proferidas pelo Delgado e outros delegados afins, concentra-se furiosamente nas telegráficas notas de rodapé que a todo o momento nos podem ser confiscadas e conclui que afinal tudo vai bem no Império, uns mortozitos, coisa pouca, mas o G8 trata da nossa saúde e a Manuela da nossa economia e, portanto, poderemos dormir tranquilos, porque se não sentimos a recuperação do défice orçamental no fim do mês que se avizinha é porque somos uns desgraçados de uns malfeitores comunistas com o único intento de fazer desvirtuar o trabalho do governo. Além do mais, a democracia floresce e propaga-se pelas nunca antes conquistadas civilizações que têm vindo a chocar com o civilizado Huntington, bem como, de modo bem mais estrondoso, com o nosso grande amigo americano G. W. Bush. Depois surgem as eleições, sejam elas quais forem, e cai o Carmo e a Trindade porque os eleitores ingratos, fazendo jus à sua ignorância política, não se incomodam a sair de casa para legitimarem as instituições democráticas, que tanto lutam pelo nosso bem-estar e pela independência dos Tribunais cujo irreconhecido mérito está bem patente na desindiciação dos nossos pedófilos políticos e na reabilitação da família Beleza que, suspeito, deve a sua formação intelectual aos irmãos metralha. Ficamos então a saber, que a esmagadora maioria dos cidadãos europeus são, na sua essência, politicamente alienados, obtusos, e pouco esclarecidos sobre a importância do Parlamento Europeu nas suas vidinhas insufladas de produtividade.
Será o autismo da classe política uma patologia infecto-contagiosa?
Enquanto aguardo uma resposta cientificamente abalizada à questão aventuro-me a uma conclusão que modestamente me parece óbvia. Estrebucham os nossos Altíssimos representantes pela sobrevivência da sua (deles) democracia representativa na caça ao voto quando o povinho lhes diz, meus amigos, não brinco mais, com estas regras joguem vocês sozinhos, clonem-se para aí à vontade. Não há equívocos, portanto. A mensagem é clara. Não contabilizamos votos brancos nem nulos, ou por outras palavras, a rejeição a este ou qualquer candidato. Contabilizamos abstenções, isto é, a clara rejeição a um sistema político que, por todo o mundo, começa a ser sentido como uma enorme falácia, um enorme ardil definitivamente afastado da defesa ou sequer da representação dos interesses destes comuns mortais que o habitam. Preparem-se pois, porque o próximo passo será a inclusão na lei de um qualquer decreto que nos obrigue, sob pena de pagamento de pesadas coimas, ao cumprimento do acto eleitoral. E toma lá para não se armarem em subversivos.
Por tudo isto, parece-me legítimo reivindicar a subida da vitoriosa abstenção ao poder.


in, http://ounoeomultiplo.blogspot.com/

Publicado por: cristina às junho 22, 2004 01:40 AM

Placard
Não quero entrar no preciosismo das palavras como eleitor versus participante. Sei que muitos eleitores são levados a votar por estranhas razões, mas a maioria vai votar nas suas conviccções por muito que as consideremos erradas.
Ao contrário da abstenção em que a maioria é do "não tenho nada a ver com isso". Podemos sempre fazer uma anãlise sociológica da abstenção ... mas ela reflecte, sem dúvida, uma variedade de situações, sendo a mais comum as populações com vidas mais carenciadas e/ou desorganizadas (atenta por exemplo aos toxicodependentes em idade de votar).
Na minha resposta a João Tilly, não colei abstenção a opção errada, apenas considerei que dizer "nós abstencionistas temos maioria absoluta" é um aproveitamento abusivo de uma situação que nada têm a ver opção consciente como a de Tilly. Considerei que, neste caso concreto, a abstenção não reflecte de forma alguma uma opção consciente da maioria dos abstencionistas.

Quanto ao domingo amargo deste sítio/fatalidade ... sou "bairrista". Todos os sítios podem ser fatalidades, verdade que uns mais que outros, mas o que importa é o que fazemos com a nossa ... sorriso
Abraço blogueiro

GIN

Publicado por: GIN às junho 13, 2004 04:14 PM

Gin,
A posição do Tilly talvez seja excessiva na forma como é assumida ou, melhor, como tenta ser explicada.

Creio, apesar disso, que deve estabeler-se um quorum seja para o que for. No referendo, que a dita democracia representativa odeia, nenhum é vinculativo com participação inferior a 50%.

É verdade que a abstenção não é um voto. Mas um voto não é um participante, é um eleitor.

Um voto expresso é muitas vezes um medo, um não me chateies.

Deve haver limites mínimos de participação no acto eleitoral. Deve mobilizar-se o eleitor, não escorraçá-lo, como acontece. Os inscritos, ainda não eliminados, são consequência do rigor e da capacidade à David Justino. Não tem a ver com o eleitor. O sistema não pode justificar-se com a sua própria incapacidade.

Nada disto tem a ver com opções tradicionais e hoje vazias de direitas ou esquerdas. Tem a ver com a consciência colectiva. Que se adquire e que se fomenta.

A Suiça, dizia-me um amigo há anos, é um país capitalista. Definitivamente. Mas, considerando as condições de vida da população suiça, somos muito mais socialistas do que os de leste, quando existiam. Tudo em resultado de uma cidadania não plena mas significativa. Onde a participação é frequente e a responsabilidade não é palavra vã.

Ontem, no Portugal Grécia, o que mais esteve em causa, antes do jogo, foi a habitual feira de vaidades de inúteis e incompetentes. Por questões de protocolo em relação aos lugares que deviam ocupar. Esse, de facto, é um problema nacional. O analfabetismo nunca foi porque nunca impediu que o Dr fosse colocado antes do nome.

Ui! Que domingo amargo. Ser deste sítio não é um desencanto. É uma fatalidade. A submeter aos cuidados vários dos muitos cientistas africanos!

Publicado por: Placard às junho 13, 2004 03:21 PM