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maio 29, 2004

Saúde: Necessidade de massa crítica

No que diz respeito à necessidade de massa crítica relativamente ao que se está a passar no Sistema de Saúde, salientaria duas questões:
1) O Sistema Nacional de Saúde está sob fogo das políticas neoliberais deste governo que, como tem sido feito com praticamente todo o património do Estado, pretende a sua privatização. Os órgãos de comunicação social, e em particular os jornalistas, abdicaram do seu papel de fazer jornalismo crítico e dedicam-se ao entretenimento. Mas se estivermos atentos, podemos ver que a ideia que tem passado para a opinião pública não é assim tão inocente. A ideia que tem sido veiculada é a de que tudo o que de mal acontece na saúde é culpa dos médicos. Ontem dia 28 de Maio, num noticiário da noite de uma das TV, deram 3 notícias seguidas:
a) Médico na Madeira acusado de abuso sexual;
b) Médica anestesista e Director Clínico do Hospital de Lagos considerados culpados da morte de dois doentes;
c) Médico em Évora explora colegas.
Não acho que qualquer destes casos deva ser escondido da opinião pública, mas questiono o tempo de antena dado às partes para exporem as suas opiniões, o permanente aparecimento de notícias sobre actos particulares de alguns médicos e, principalmente, questiono o facto destes três casos serem colocados de forma a parecer que podem ser analisados em pé de igualdade. Pedro Nunes, também candidato a bastonário da Ordem, realça que o relatório feito pelo presidente do Colégio da Especialidade de Anestesiologia da OM, Carlos Guinot, concluiu que não havia erro médico. "É com demasiada leviandade que se passa por cima de um parecer médico para contentamento da populaça".
Tudo somado, a saúde está cada vez pior e a culpa é dos médicos.

2) A massa crítica, na minha opinião, dinamiza-se de duas formas:
a) por um lado, com uma relação mais humanizada com os doentes e com o fim da impunidade para os médicos que violem as regras a que estão obrigados, de forma a que um não seja tomado por toda a classe. Já aqui defendi que a impunidade dos médicos resulta do silêncio dos pares e da passividade da Ordem dos Médicos e que, por isso, são estes os principais responsáveis pela visão que a população tem da classe médica e pelo aproveitamento que desse facto faz o governo.
b) por outro lado, é necessário que os médicos assumam uma posição mais crítica e mais pensada e que reconheçam a necessidade de ser mais activos na discussão do que se passa na saúde. Os médicos escrevem pouco e as suas opiniões ficam “fechadas” dentro e entre a classe. O colocar a discussão “na rua” põe em confronto as posições dos “de dentro” (médicos e outro pessoal de saúde) com as posições “dos de fora” (a generalidade da população). Estas posições são necessariamente diferentes, mas não inconciliáveis. Para lá do que parece incompreensível para cada um dos lados, porque se está a fazer a leitura das situações de perspectivas diferentes, no fundamental é possível encontrar plataformas de entendimento.
Porque não um “Jornal de Medicina OnLine” dinamizado pela Ordem, onde os cidadãos pudessem intervir com as suas opiniões?
Porque não utilizar a net como um dinamizador da discussão sobre o que se passa na saúde, direccionada, pelo menos, a uma camada da população que a ela tem acesso?
Porque não mostrar os exemplos que se conhecem do que se passa nos países que optaram pela via que segue este governo e o que se passa em países que mantêm a saúde como Serviço Público e que são pautados pela excelência?


GIN

Publicado por agineotonico às maio 29, 2004 11:44 PM