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maio 24, 2004
Doente Estatístico
Rui Nunes, Presidente da Entidade Reguladora da Saúde, parece ter ideias claras quanto ao papel deste organismo. Se, por um lado, avisa o governo que as reformas a introduzir na saúde só são possíveis com a colaboração dos profissionais da área, por outro, diz que os médicos têm de perceber o “conceito custo-oportunidade” e que espera que quando fizerem a revisão do seu código deontológico o alterem introduzindo o “conceito responsabilidade social”.
A necessidade desta alteração advém do facto, diz Rui Nunes, de “a ética e cultura médica tradicionais foram sempre no sentido de fazer o melhor possível pelos doentes em termos reais. Há esta confrontação de valores e temos que encontrar aqui um mecanismo de resolver o problema que não seja anárquico. Os médicos têm que se capacitar que a sua responsabilidade principal é o doente, mas também tem responsabilidades para com a sociedade, o colectivo, o doente estatístico.”
Publicado por agineotonico às maio 24, 2004 10:35 AM
Comentários
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Publicado por: Gilbert às janeiro 14, 2005 07:13 PM
O Dr. Rui Nunes, está a tentar uma entrada cautelosa.
Ao mesmo tempo que repete a cartilha do ministro - criação de uma cultura de eficiência, racionalização dos recursos - tenta serenar a classe médica, dizendo que, a reforma estrutural da saúde não se faz sem a colaboração das corporações profissionais.
RN, tem tido a preocupação de utilizar um tom conciliador, a ver se consegue levar a água ao moinho.
Tem contra si, o facto de, não dominar os vários tipos de discurso que são necessários para gerir esta entidade.
Caberá à ERS o desempenho de um importante papel na defesa do Serviço Nacional de Saúde, zelando pelo cumprimento das regras que garantam a acessibilidade e a qualidade dos cuidados de saúde, face ao assalto dos interesses do sector privado.
Penso que o Dr Rui Nunes não será a pessoa mais indicada para levar a bom porto esta árdua tarefa. Oxalá esteja enganado.
Publicado por: Anonymous às maio 25, 2004 11:08 PM
Por outro lado, parece-me correcto uma optimização dos recursos, mas tb isso tem que ser claro no seu significado. Optimização de recursos pode significar uma melhor gestão entre, por exemplo, a utilização de meios de diagnóstico duplicados porque pedidos por médicos diferentes, mas tb pode, neste caso concreto, significar que se fores convencionado ou privado tens acesso a todos os meios de diagnóstico disponíveis, mas se assim não for, não tens acesso a ele. este é apenas um caso, claro.
Sei que é necessário encontrar formas de combater o desperdício a todos os níveis, mas parece-me que não é esse o objectivo final destas medidas.
Também consigo perceber a importãncia de um organismo como a ERS, o problema está em definir qual o seu papel concreto e a sua independência na avaliação e controle dos sistemas de saúde
GIN
Publicado por: GIN às maio 24, 2004 11:23 PM
Não conheço Rui Nunes. Mas parece-me que ter "por objectivo a valorização da eficiência, a racionalização dos recursos, a maximização dos resultados e a utilização preferencial da via contratual, e por mecanismos de competitivos- tipo mercado (MTM)..." não implica que os médicos tenham que deixar “a ética e cultura médica tradicionais foram sempre no sentido de fazer o melhor possível pelos doentes em termos reais" para passar a tratar com os doentes como um número de entre um conjunto de números anónimos. A leitura prática desse princípio pode ser feita de diferentes maneiras e não é por acaso que assim está redigida. Porque pedir que se troque a atenção pelo doente individual por uma "responsabilidade para com a sociedade" sem que seja claro o significado dessa responsabilidade, permite que estejam a ser marginalizados no SNS grandes grupos de pessoas em favorecimento dos convencionados e dos privados. As "responsabilidades para com a sociedade" passam a ser "as necessidades definidas pelo poder político e económico" ... e isto é bastante questionável
GIN
Publicado por: GIN às maio 24, 2004 11:15 PM
xavier
Publicado por: xavier às maio 24, 2004 11:06 PM
A Criação da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) tem por objectivo, face à reforma institucional da saúde em curso, na qual "os operadores públicos, serão, progressivamente, substituídos pela lógica empresarial. Tendo por objectivo a valorização da eficiência, a racionalização dos recursos, a maximização dos resultados e a utilização preferencial da via contratual, e por mecanismos de competitivos- tipo mercado (MTM)..."
(excerto do preâmbulo do diploma que criou a ERS)
O responsável da ERS é um médico, boa pessoa, que cedeu à tentação de aceitar este lugar.
Agora, usando um discurso complicado, tenta teorizar sobre uma área que lhe é estranha.
Com o desenrolar do processo vai ser entalado.
A criação desta entidade reguladora, visa desresponsabilizar o ministério da saúde das trapalhadas que o processo de privatização dos hospitais, em curso, acarretará.
Duma forma atabalhoada o responsável da ERS, quando refere o doente estatístico, quererá alertar o pessoal médico, para a nova cultura de eficiência a implementar nos hospitais (tratar os doentes, ponderando a utilização dos recursos).
Realmente, com este tipo de discurso, só com tradutor.
Dificilmente sobreviverá ao ambiente vietnamizado da saúde.
Publicado por: Xavier às maio 24, 2004 11:03 PM