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abril 07, 2004

Voto em branco, abstenção e democracia

Diz aqui que “A abstenção é o voto fora do sistema ... mas é muitas vezes o voto da ignorância, da preguiça, ou do simples desinteresse”. Diz ainda que o voto em branco é mais merecedor de credibilidade que a abstenção porque “não sendo o “cartão amarelo à democracia”, é o cartão amarelo à democracia que temos, aos partidos que a compõe, é o "outro partido" que não existe ...”.
Eu diria que o voto em branco traduz, para além disso, a recusa ao discurso estafado do “voto (in)útil” esbracejado pela oposição, nos períodos que antecedem os actos eleitorais, tentando fazer-nos sentir culpados pela sua própria incompetência enquanto oposição.
A questão do voto em branco, não me parece que deva ser colocada em termos de “voto inteligente” (como é feito no referido post), mas sim enquanto resultado de um acto consciente de cidadania: eu vou votar porque considero que, como cidadã, tenho a obrigação de “dar a minha opinião” sobre a matéria colocada a plebiscito. O meu voto é a minha voz tornada pública, o meu voto em branco é o dizer, “alto e em bom som”, que não concordo, ou não dou credibilidade às alternativas apresentadas. Assim, o voto em branco, está a dizer que não está conivente com a democracia (este conceito está a tornar-se excessivamente elástico) que temos e com quem a leva à prática – o actual governo – nem com as alternativas a esta democracia que temos – as diferentes oposições (se é que as há).
O voto em branco tem peso na leitura que se faz dos resultados eleitorais, tem o peso dessa “leitura” que é razoavelmente homogénea – o cartão amarelo, conscientemente assumido.
Considero, salvo raras excepções, o apelo à abstenção um aproveitamento oportunista dos resultados eleitorais. A abstenção é um enorme saco onde cabem muitas e diferentes motivações/razões para a não participação neste mecanismo da democracia.


GIN

Publicado por agineotonico às abril 7, 2004 05:24 PM

Comentários

Se eu votar em branco meu voto irá para quem tem mais ou menos votos?

Publicado por: Rogério às setembro 2, 2004 06:26 PM

Nem mais! In GIN veritas.
E para não ocupar espaço indevido, porque o texto ainda é longo, convido-vos a ler o meu "Manifesto contra o voto útil".

Publicado por: Luís Humberto Teixeira às abril 8, 2004 09:31 PM

eu sou pela abstenção. os tipos não merecem sequer o trabalho de me deslocar à assembleia de voto. nunca mais votarei na vida.

Publicado por: Cândida às abril 8, 2004 12:40 AM

Tb não li ainda o último de Saramago, por isso limitei-me a falar sobre o voto em branco e a abstenção. E tens razão, o silêncio, por vezes é corrosivo. Só discordo quando metes no mesmo saco as duas coisas. A abstenção é silêncio, é o "nem quero saber, nada tenho a ver com isso". O voto em branco, não é silêncio mas "um berrar ou esbracejar contra o que nos oprime". O voto útil, parece-me correcto se for "em quem admitirmos ser útil". Não vejo diferença entre ir votar em qualquer das opções colocadas à votação e ir lá votar em branco, porque este último é um voto numa opção que se sente que não existe no momento, mas que é possível. Isto é uma convicção e, por isso, exprimi-lo através de um voto, é tudo menos silêncio.
Quanto ao "berrar e esbracejar contra o que nos oprime, é lutar", repito o que disse no post: "a recusa ao discurso estafado do “voto (in)útil” esbracejado pela oposição, nos períodos que antecedem os actos eleitorais, tentando fazer-nos sentir culpados pela sua própria incompetência enquanto oposição"
Abraço

GIN

Publicado por: GIN às abril 8, 2004 12:07 AM

Ainda não li o último de Saramago, nem sei quando virei ou se virei a fazê-lo
logo não faço comentários, sobre esse “ensaio”.
Mas sempre poderei ir dizendo, que por vezes o silêncio é o que mais nos corrói.
Logo berrar e esbracejar contra o que nos oprime, é lutar.
Votar útil (ou em quem admitimos ser útil), é uma forma de luta.
Votar em branco ou simplesmente anular ou não ir, é uma forma de silêncio e
como diz a sabedoria popular quem cala consente.

Publicado por: jgonçalves às abril 7, 2004 11:05 PM