« Para onde vamos com a privatização (2) | Entrada | Comentários aos dados do Ministro da Saúde »
abril 11, 2004
Para onde vamos com a privatização (3)
Nas sociedades tradicionais, havia uma certa continuidade na organização da produção, de uma geração para outra, a inserção produtiva ocorria naturalmente, pelo fato de haver coincidência entre o espaço casa e o espaço produtivo. Os jovens iam gradualmente aprendendo com os pais, organizavam-se diversas formas de divisão de trabalho na família, ou seja, ia-se mantendo um processo de reprodução social onde o trabalho representava uma continuidade entre gerações.
Mas o mundo das nossas relações é, hoje, essencialmente urbano e são raros os casos de continuidade profissional, salvo no caso de pequenas empresas familiares. Não há qualquer coincidência entre o espaço casa e o espaço de trabalho, e cada vez mais a casa é para onde se volta cansado à noite, e de onde saem sonolentos pais e filhos cada vez mais cedo: os subúrbios constituem hoje cidades dormitório e, de forma geral, as nossas casas transformaram-se em casas dormitório.
Com as condições economicamente precárias das famílias, estas ficam com muito pouca iniciativa sobre o seu trabalho. A pessoa não “organiza” as suas actividades, “procura” emprego no espaço anónimo da cidade. Com o aprofundamento da divisão do trabalho na sociedade, há empresas especializadas para cada coisa, e o acesso ao que nos é necessário na vida quotidiana passa a depender do dinheiro que entra em casa. O que perdemos, em grande parte, é o sentimento de que a nossa vida depende de nós, do nosso esforço, do que gostamos e da nossa iniciativa. Sentimo-nos empurrados por forças cujos mecanismos nos escapam.
O espaço da família era um espaço onde se fazia coisas juntos, como era o caso das comunidades. O desaparecimento desta dimensão da organização social gera uma sociedade de indivíduos que rosnam uns para os outros na luta pelo dinheiro, e esquecem que a qualidade de vida é uma construção social. Vencer na vida, da forma como nos apresentam diariamente na televisão, é um processo de guerra contra os outros, e resulta em morarmos num condomínio caro e cercado de guaritas.
É o sucesso: o executivo uniformizado de ataché-case, caneta Mont Blanc, e outros apetrechos correspondentes, – versão sofisticada do homem-sanduiche, ostentando um cartaz a dizer “sou melhor que vocês”.
Este raciocínio do sucesso a todo o custo, leva-nos à questão de que o trabalho não deve ser encarado apenas como uma tarefa técnica que consiste em produzir o mais rápido possível, o mais possível, com vista à obtenção do máximo de dinheiro possível. O trabalho deve constituir um elemento essencial da organização e aprendizagem das relações sociais.
A ruptura profunda gerada, entre o universo do trabalho e o universo familiar, tende naturalmente a desestruturar a família. E o trabalho, privado da sua dimensão afectiva de relacionamento, na correria do just-in-time, na malvadeza cientificamente assumida do lean-and-mean, na patologia cristã de que só é virtuoso o que nos faz sofrer, o que nos sacrifica, gera gradualmente um deserto onde vemos pouco sentido no que fazemos no emprego, a não ser no dinheiro do fim do mês, na compra de mais uma televisão, na troca do sofá.
A sociabilidade no trabalho é funcional, interessada, presa à hierarquia de quem manda e de quem obedece, eivada de rivalidades, ciúmes, cotoveladas discretos, sorrisos amarelos.
A exigência de criação de equipamentos de solidariedade social dependentes do Estado, da redução do horário semanal de trabalho, essencial para melhorar a nossa produtividade e para resgatar o elo temporal entre a vida familiar, a vida profissional e actividades sociais complementares, está gradualmente a ser substituída pelo trabalho avençado sem controle de horas de trabalho, pelo desemprego, pelo aumento com as despesas da saúde, da educação, enfim, por um conjunto de dificuldades acrescidas.
De certa maneira, estamos perante um mecanismo perverso, onde o acesso às coisas elementares da vida exige cada vez mais dinheiro, onde se exige que as famílias se organizem para maximizar os seus salários, que os seus filhos já entram na primeira infância com a filosofia da competição, a que chamamos preparação para a vida, carregando as suas pesadas mochilas de material escolar. Perde-se o convívio familiar, a sociabilidade comunitária, gera-se um bando de zombis eficientes que não param para perguntar o mais evidente: estamos todos a correr para onde??
GIN
Para onde vamos com a privatização
Publicado por agineotonico às abril 11, 2004 04:50 PM
Comentários
Estes 3 posts são magníficos! Muito bem informados, muito bem escritos, esclarecedores. Linkei-os para o Cão de Guarda e espero bem que muita gente os leia. São mesmo do melhor que tenho visto. Parabéns, muito sinceros.
De uma forma geral todo o blog é muito bom, mas estes posts são excepcionais.
Publicado por: L.G. às abril 12, 2004 10:06 PM