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abril 11, 2004

Para onde vamos com a privatização

A unidade básica de organização da reprodução humana é a família. Ou pelo menos foi: hoje, o processo está a tornar-se incomparavelmente mais complexo e diversificado.
Numa perspectiva económica, a reprodução de gerações na família constrói-se através de laços de solidariedade. Os pais cuidam das crianças, e dos seus próprios pais já idosos, e serão por sua vez cuidados pelos filhos. A solidariedade é marcada pela panela, pelo facto de um grupo sobreviver através de esquemas de entre-ajuda financeira.
Como a criança não tem autonomia para sobreviver, nem o idoso, a sobrevivência das sucessivas gerações dependia no passado, e ainda depende em grande parte nas sociedades modernas, da solidariedade familiar.
Em termos económicos, a fase activa da nossa vida, tipicamente dos 16 aos 64 anos, pode ser vista como produzindo um excedente: produzimos nesta idade mais do que o que consumimos, e com isto podemos sustentar filhos e idosos, eventuais deficientes, ou doentes, ou pessoas da família que, mesmo em idade activa, não tenham forma de subsistência autónoma. Dito de outra forma, a economia da família permite, ou permitia, uma redistribuição interna entre os que produzem um excedente, e os que necessitam deste excedente para sobreviver.
O capitalismo moderno, centrado no consumismo, inventou a família economicamente rentável, composta de mãe, pai e um casal de filhos, o apartamento, o sofá e a televisão: é a família nuclear.
A mudança profunda e acelerada na estrutura familiar teve sem dúvida um profundo impacto sobre um grande número de dinâmicas sociais, a cultura, os valores, as formas de convívio.
Para além da família, havia as comunidades, havia o suporte solidário da comunidade, ou seja, podia procurar-se o vizinho.
Hoje, nesta era da sociedade anónima, uma pessoa está literalmente só na multidão urbana. Para esta solidão contribuiu a urbanização, mas também contribuíram a televisão, a formação dos subúrbios e das cidades-dormitório que, em conjunto com a família, fragilizam a própria articulação da comunidade e da solidariedade social.
Com a revolução tecnológica, o conhecimento torna-se num elemento central dos processos produtivos e, se na geração anterior, a infância terminava relativamente cedo, hoje, para a maioria das pessoas, a fase dependente no início da vida tende a estender-se cada vez mais. Vemos com frequência jovens que vivem uma pós-adolescência tardia, pela necessidade de maior formação que, eventualmente, lhes permita um emprego no horizonte.
Do lado do idoso, havia uma certa lógica nas sociedades de antigamente. Vivia-se até os 50 anos, quando muito, e o tempo de criar os filhos era a conta justa. Hoje, uma pessoa pode perfeitamente viver até aos 80 ou mais anos, e a terceira idade assume uma dimensão que cobre entre um quarto e um terço da nossa vida.
Trata-se, aqui também, de uma fase de dependência muito precária, pois os sistemas de reforma, tanto em termos de cobertura como de nível de remuneração, são muito deficientes, e a família não tem meios para suportar esta dependência e, assim, simplesmente evita o convívio com os idosos.
Ou seja, o tempo de dependência da nossa vida aumentou dramaticamente, enquanto a família, que assegurava a redistribuição do excedente entre as gerações – e entre as fases remuneradas e não-remuneradas das nossas vidas – está a tornar-se cada vez menos presente.
Este processo torna absolutamente indispensável a presença de mecanismos sociais de redistribuição de bens, suprindo o papel que as famílias estão incapazes de desempenhar. Trata-se de uma redistribuição de bens essenciais, já não só dos ricos para os pobres, mas entre gerações.


GIN

Publicado por agineotonico às abril 11, 2004 02:00 PM