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abril 27, 2004
Os novos paradigmas da educação (2)
A educação de qualidade é um projecto para o futuro, para o desconhecido, para o que será o mundo que nós agora desconhecemos. Não podemos andar a reboque das últimas modas da pedagogia.
Precisamente porque não sabemos como será o mundo daqui a 20 anos, temos de transmitir o nuclear, para que os estudantes possam enfrentar com criatividade, seriedade e competência os desafios do futuro. E o que é o nuclear senão estar à-vontade com as ideias, saber discuti-las, saber argumentar, e ter um conhecimento sólido das disciplinas milenares centrais? Um estudante que tem um conhecimento sólido de física, de história, das línguas cultas mais significativas, de filosofia, geografia, matemática, etc., e que tem instrumentos críticos que lhe permitem avaliar criativamente ideias, será um cidadão bem equipado para enfrentar os desafios do futuro. Um estudante que sabe enfrentar problemas, avaliar e propor teorias e argumentos — que sabe, em suma, pensar por si — é um cidadão criativo e crítico, elementos sine qua non para uma sociedade próspera. Mas um estudante que sabe apenas repetir ideias que não compreende e que não discute, ideias que não passam de jogos de palavras e que não têm qualquer relação com seja o que for, é garantia de atraso. Se ainda por cima essas ideias já forem velhas quando ele as aprendeu, o atraso será grotesco. Não se percebe agora melhor o atraso nacional?
Um ensino voltado para as "necessidades concretas" dos estudantes e da sociedade é um mau ensino. Porque as "necessidades concretas" são mitos, configurações do que algumas pessoas pensam agora que é necessário, em função da maneira antiquada como vêem o mundo. É como decidir agora ensinar a todos os estudantes de forma dogmática e acrítica a usar o Windows 95. Daqui a 10 anos ninguém se vai lembrar do que é o Windows 95, e os estudantes vão ficar com uma aprendizagem que podem deitar para o lixo. O ensino de qualidade não pode estar todo voltado para o que agora está na moda, porque as modas passam. Ao invés, tem de estar voltado para o que nunca passará de moda: a capacidade para compreender problemas, teorias e argumentos, e a capacidade para reagir a eles de forma criativa e consequente.
(Desidério Murcho)
GIN
Publicado por agineotonico às abril 27, 2004 03:00 PM