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abril 27, 2004

Os novos paradigmas da educação (1)

Alguns discursos de responsáveis e estudiosos da educação são muito inquietantes. Esses discursos têm vários ingredientes, um dos quais é precisamente o uso de expressões como "novos paradigmas", "modernidade", "pós-modernidade" e outros deste género. Nestas linhas vou procurar mostrar alguns dos problemas de que enfermam este tipo de discursos.

Em primeiro lugar, estão ultrapassados. Os chamados "novos paradigmas" são ideias que se baseiam em livros que têm quase 40 anos. Tomemos a ideia de que o projecto da modernidade "faliu" e que estamos a transitar para a "pós-modernidade". Estas ideias estão longe de ser novas ou aceitáveis. O escândalo Sokal devia fazer as pessoas das "ciências" da educação pensar duas vezes neste tipo de ideias. Só porque alguns intelectuais fizeram um dado diagnóstico cultural temos de o aceitar dogmaticamente, sem discussão? Por outro lado, olhe-se para a realidade: quais são as melhores universidades do mundo? São as que adoptaram as ideias pós-modernistas, ou as que continuam a apostar nos melhores padrões de seriedade académica, que colocam a objectividade e a procura da verdade acima dos interesses, do poder e da retórica?

Em segundo lugar, ainda que tais ideias não estivessem ultrapassadas e não fossem discutíveis, é sempre triste ver como as pessoas que falam da educação não têm a menor ideia do que é educar, não têm um conceito claro, não têm uma visão. Tudo o que fazem é repetir acriticamente certas ideias como se fossem a novidade triunfante da educação, da cultura, e da sociedade. Mas se há um axioma básico da educação é que não pode andar a reboque das últimas novidades fascinantes — e tantas vezes fascizantes no seu relativismo incoerente e no seu aplauso à retórica sofística. Porque as últimas novidades fascinantes serão velharias inúteis, ideias mortas e enterradas, dentro de 20 anos. E quando introduzimos mudanças na educação, elas fazem-se sentir dentro de 20 anos e não hoje. Orientar a nossa educação pelas ideias de hoje já é um disparate, mas orientar a educação por ideias que até hoje já estão enterradas é monstruoso.
(Desidério Murcho)


GIN

Publicado por agineotonico às abril 27, 2004 02:49 PM