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abril 29, 2004

O SILÊNCIO DOS ESCRITORES


(Shout, Misha Gordin)

Para os grandes escritores do século XX, a arte não podia estar separada da política. Hoje, há um silêncio perturbador sobre questões que deveriam nos comandar a atenção.
Em 1935, o primeiro Congresso de Escritores Americanos teve lugar no Carnegie Hall, em Nova York, seguido de outro, dois anos depois ... Tratava-se de eventos eletrizantes, com escritores discutindo como poderiam confrontar os acontecimentos na Abissínia, China e Espanha. Telegramas de Thomas Mann, C Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos em voz alta, refletindo o medo da escalada do grande poder e que tinha se tornado impossível discutir sobre arte e literatura sem se falar de política.

"Um escritor", disse Martha Gellhorn durante o segundo congresso, "deve ser um homem de ação, agora… Um homem que tenha dado um ano de sua vida às greves das metalúrgicas, ou à causa dos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu nem desperdiçou o seu tempo. É um homem que se tornou consciente a respeito de onde pertencia. Quem conseguir sobreviver uma ação dessas, o que terá que fazer depois é dizer a verdade sobre o que viveu; é necessário e real, e sua palavra durará".

As palavras de Gellhorn ecoam através do silêncio do tempo presente. Que a ameaça do grande e violento poder em nossos tempos seja aparentemente aceita por escritores famosos, e por muitos daqueles que são os guardiães dos portões da crítica literária, é um facto que não apresenta controvérsias. Não é deles a crença da impossibilidade de se escrever e promover uma literatura tolhida de política. Não é deles a responsabilidade de desembuchar — uma responsabilidade sentida até mesmo pelo apolítico Ernest Hemingway.

Hoje em dia, declarou-se que o realismo é obsoleto; afecta-se uma altivez irónica; o falso simbolismo é tudo. Quanto aos leitores, sua imaginação política deve ser apaziguada, não estimulada; afinal de contas, eles não estão nem aí… Martin Amis expressou isso muito bem, em "Visitando a Sra. Nabokov": "O predomínio do eu não é um ponto fraco, é uma característica evolutiva; as coisas estão simplesmente assim".

Assim, isso é "evolução". Nós evoluímos ao eu apolítico; à introspecção e ao bate-boca de indivíduos divorciados de qualquer noção de que sua auto-obsessão é menos importante e menos interessante que o compromisso em relação a como são as coisas para o resto de nós.

Há alguns anos, o então florescente crítico literário D J Taylor escreveu uma rara peça chamada "When the pen sleeps" ("Quando a caneta dorme"). Ele a expandiu, tranformando-a em livro, "A Vain Conceit" ("Um Vão Conceito"), no qual ele refletia porque o romance inglês degenerava, com tanta frequência, num "gorjeio de sala de visitas" e porque as questões urgentes da atualidade eram evitadas pelos escritores, ao contrário dos escritores de outras regiões, digamos, na América Latina, onde sentiam uma obrigação de acolher a essência política em todas as nossas vidas; ela, que amolda nossas vidas.

Ele se perguntava onde estavam os George Orwells, os Upton Sinclairs, os John Steinbecks? (Parece que recentemente Taylor repudiou esse questionamento; espero que tenha recuperado sua coragem.)

As principais listas de prémios de literatura corroboram sua tese original. Apesar disso, segundo Claire Armistead, editora literária do The Guardian, "os escritores estão desafiando qualquer forma de provincianismo". Mas o que mais desafiam? Ela descreve "uma inventividade realmente genérica" nos três candidatos para a categoria ‘não-ficção’ do Guardian Book Award. Um é sobre um neurologista que brinca com as palavras de um modo "totalmente excêntrico", outro trata de montanhas; o terceiro versa sobre a antiga Alemanha Oriental, em relação ao qual ela diz "que nos faz entender um pouco melhor o velho e engraçado mundo em que vivemos".

Mas onde estão os trabalhos contemporâneos que vão à essência deste ‘velho e engraçado mundo’, como fizeram os livros de Steinbeck e Joseph Heller? Onde está o equivalente de "As Veias Abertas da América Latina" de Eduardo Galeano, de "What a Carve-Up!" de Jonathan Coe e de "The Redundancy of Courage" de Timothy Mo? Existem, naturalmente, exceções honrosas. Pode-se comprar a coleção "And the Judges Said" de James Kelman na W H Smith, prova de que os livros que resgatam a verdadeira política da "inconsequência gozadora" (tanto para tomar emprestada a expressão de F Scott Fitzgerald) das aldeias da mídia de Westminster são muito desejadas pelo público.

Efetivamente, há um grande número de livros de autores pouco conhecidos, produzidos por editoras batalhadoras como Pluto e Zed, os quais iluminam, às vezes de forma brilhante, as sombras do poder predatório, e que são ignorados pela maioria influente. Sem dúvida, são considerados "políticos"; e a menos que a política possa ser reduzida aos seus estereótipos e, ainda melhor, transformada num episódio de TV… a resposta é… Não, muito obrigado.

Afinal de contas, como escreveu um crítico que domina as resenhas de críticas dos livros de não-ficção em edições de capa económica: a ideia de que a democracia social esteja ameaçada pela marcha insana de George Bush e de seu McCarthismo atendente é, bem… "bobinha". Independentemente do facto de que quando você voa aos EUA, você perde as liberdades civis fundamentais de sua privacidade; de que o seu próprio nome possa ser motivo suficiente para levá-lo a inspeções de segurança, como tão frequentemente experienciou Edward Said; de que agora o FBI inspecione rotineiramente a lista de obras lidas nas bibliotecas públicas.

Esses são tempos perigosos, e surreais. Coluna após coluna é dedicada ao culto de Martin Amis: ele, que descreve que "a política definhou nesse país, e que isso é um grande tributo ao carácter altamente evoluído do país", e que debocha das grandes demonstrações anti-capitalistas e anti-guerra, descrevendo-as como "realmente [sobre] anti-política; eles estão protestando contra a política em si".

Enquanto o Guardian se regozija da recém encontrada humanidade da ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, por ocasião da promoção de sua autobiografia, "Madam Secretary", não há uma única referência ao facto de que essa mesma mulher, quando perguntada se valia a pena o preço pago pelas sanções impostas pelos EUA ao Iraque — a morte de 500.000 crianças — respondeu: "Achamos que vale a pena". O título sobre a sua face sorridente diz: "Adorei o que fiz".

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio" disse o dissidente soviético Yevgeny Yevtushenko, "o silêncio é uma mentira". Nenhum congresso de escritores hoje em dia se preocupa com as mentiras e os crimes de George Bush e Tony Blair. É gratificante que o dramaturgo David Hare tenha quebrado seu silêncio ("America provides the firepower; we provide the bullshit" /"A América fornece a potência de fogo; nós fornecemos o bostejo"), juntando-se ao corajoso dissidente Harold Pinter.

Agora, há urgência. Um documento de Downing Street circulou entre os governos "progressistas" da Europa; quer uma nova ordem mundial na qual as potências ocidentais tenham a autoridade de atacar qualquer outra nação soberana. Em seis anos, Blair enviou tropas britânicas para participarem de cinco diferentes conflitos, e ainda quer mais sangria. O documento ecoa seus pontos de vista sobre "direitos e responsabilidades" — de matar e devastar povos em lugares remotos e, conseqüentemente, pondo em perigo e nos diminuindo a todos nós.

O que George Orwell diria disso tudo? Há uma série de eventos sobre Orwell planejados para comemorar seu nascimento. A maioria dos que participam é politicamente segura ou são guerreiros liberais devidamente credenciados. E se Orwell tivesse transformado "Animal Farm" ("A Revolução dos Bichos") e "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" em parábolas sobre o controle do pensamento nas sociedades relativamente livres, nas quais ele identificou as mentes disciplinadas do estado corporativo e as fronteiras invisíveis do controle liberal e as últimas modas nas roupas do imperador? Será que eles o celebrariam ainda?

"Eles não dirão…" escreveu Bertolt Brecht em "Tempos Sombrios". "…quando as grandes guerras estavam sendo preparadas… eles não dirão: os tempos eram sombrios. Mas: porque estavam calados seus poetas?"
(John Pilger)


GIN

Publicado por agineotonico às abril 29, 2004 07:36 PM

Comentários

Será caso para dizer: Nestes tempos de imbecilização generalizada, muitos escritores optam por produzir entertenimento para as massas, "ganham a vida", sem problemas de maior.
Contudo, os resistentes nunca hão-de desaparecer da face do planeta.

Publicado por: Rodrigo Ribeiro às abril 29, 2004 09:01 PM

Continuamos a assistir ao "triunfo dos porcos" ou então dos cães, já que o nosso maior escritor nos manda uivar.

Publicado por: João Norte às abril 29, 2004 08:04 PM