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abril 25, 2004
O AMOR

Também por tudo isto, meu amor, nós tivemos de percorrer os becos negros do medo, num tempo sem luz - e amavamos a cidade.
Navegámos na aventura de recusar evidências.
Tivemos de fugir, construir paraísos clandestinos, e descobrir cerejas onde só havia cardos.
Mergulhámos, verticais, na raiva de resistir ao destino e à má sorte.
Aprendemos, na dor, a amar a arquitectura das coisas com os olhos das mãos.
Como o pescador ama o céu e o mar, e os recados que o vento lhe rasga no chão da pele.
E o camponês ama a terra no milagre repetido de a fazer parir o pão - e a sombra dos pinheiros.
Como o marinheiro ama a linha do horizonte e o porto de chegada - ou de partida.
E o operário ama a cambota que constrói diariamente - à espera da saída.
Como o mineiro ama os labirintos de lama, o fogo do carvão - e o luar.
Assim ensinarás sempre os teus caminhos às minhas mãos sedentas. E eu hei-de percorrer-te, saber os teus segredos, sair para a rua em Maio, e conquistar, contigo, inteira, a dimensão de amar.
(José Fanha in Busca)
Publicado por agineotonico às abril 25, 2004 03:39 PM