« A maioria dos israelitas está cansada da ocupação | Entrada | Reino Unido vai pagar aos alunos para continuarem a estudar »

abril 19, 2004

Nasceu há oito anos na prisão


Tino é tão pequeno que não chega aos pedais, mas já roubou e várias vezes conduziu carros. "Puxo o banco todo para a frente", explica a rir. Teve acidentes, despistes graves. O Honda é a sua perdição. Tem dezenas de processos, por furto, roubo de viaturas com chave falsa ou arrombamento de canhão de fechadura.
...
Claudino fugiu várias vezes de casa. "O padrasto batia-me com o cinto e a trela do cão", conta muito baixinho. Uma noite foi encontrado a dormir no Mercado da Ribeira em Lisboa. Tem 12 anos e uma extensa lista de "ilícitos criminais" cometidos desde os 9 anos
...
Migas é dos miúdos mais temidos, um dos mais espertos, também. Nasceu há oito anos na prisão. A mãe foi condenada por tráfico. O pai desapareceu. Migas sai em passo acelerado da escola. Não tem nada para contar. "Quem os cria é o pessoal da rua", diz um rapaz mais velho. Os pais estão muitas vezes ausentes. Muitas crianças não têm o apoio dos pais, ou não têm pais.
...
Flávio conta os euros do espesso maço de notas que tira do bolso. "É preciso alimentar a vida, não é só para a fatiota." Tem os dois irmãos na cadeia, ídolos para os mais pequenos que se inspiram nas suas histórias de armas e perseguições. "A polícia nunca me vai apanhar" ... Tencionam manter a guerra à polícia. Um miúdo de 15 anos desabafa: "Um dia vou para o inferno. Mas antes de ir, vou matá-los. Eles são muito abusados." Dizem que os polícias entram armados, revistam as pessoas, em demonstração de força e de abuso de poder. "Eles não têm respeito pelas pessoas."
...
Algumas vivem na rua. Um dia participam num roubo, aprendem as regras do furto, entram no vício dos automóveis. Aos 9 anos, tornam-se indispensáveis, abandonam a escola ou são expulsos por faltas. Surpreendem-se ao volante de carros roubados, em aguerridas perseguições com a polícia. Vibram a contar essas histórias. Alguns ajudam os mais velhos a traficar.
"Já cheirei. Já roubei. Já matei."
...
Huco - Não se conforma com a condição humilde da família. "Tenho que orientar dinheiro." E os pais? A mãe não tem hora. O pai chega para lá da meia-noite. "Queria ter paz e dinheiro, fazer a minha vida feliz. Não queria ser pobre." Rouba para ter dinheiro, para comprar roupa, e outras coisas. Basta alguém dizer, "Vou buscar um carro. Alinhas?"
...
Culpam o Governo, a câmara, a polícia. Em poucas palavras dizem a sua revolta: "As pessoas não sabem ver as pessoas." Os pais - que muitas vezes os abandonaram - são os últimos em quem deixam de acreditar.

Têm saudades da vida que levavam na Pedreira dos Húngaros. "A polícia não entrava lá." Mas não é só por isso, explica um rapaz mais velho. "Aqui nós não temos voz." Queixam-se da falta de espaços verdes e de associações onde se organizavam convívios. "No meu bairro, tínhamos campo, tínhamos curso. Estamos aqui há cinco anos e não temos nada." Eram mais alegres. Um dia, deram-lhes uma chave. A mudança só tornou mais visível a ira da sua geração.
...
"Isto é uma podridão", desabafa Maria. Desde que se mudou para este bairro social, vive no medo que os seus dois filhos entrem nesse mundo oculto da delinquência e do tráfico que afinal se faz à vista de todos.
...
A delinquência não se restringe aos bairros sociais, onde há muitas famílias disfuncionais. Mas o realojamento em casas, depois das demolições de bairros de barracas como a Pedreira dos Húngaros, o 6 de Maio ou as Fontainhas, não acabou com os problemas. Pelo contrário. Poderá tê-los acentuado ou tornado mais visíveis.
...
Dave - O irmão ficou dois dias estendido no asfalto do casal Ventoso, em Lisboa. Dave foi encontrá-lo ao relento, de cabeça para baixo e braços abertos. As pessoas pensavam que dormia. Tinha morrido de overdose. "Nem chorei." ... Tem 21 anos, mas o corpo frágil de um adolescente. Podia ter completado os estudos, ter arranjado um trabalho. Aos 11 anos deixou a escola, desencaminhou para outra vida. "Se eu sou assim agora é porque já passei mal." Serve-se de mais um copo. "O meu pai já morreu, a minha irmã já morreu, a minha mãe já foi de cana e eu já passei fome." Naquele dia muita gente foi presa. A mãe também. Dave tinha cinco anos. Ela nunca vendeu nada a ninguém. "Mas guardava a 'cena' de outras pessoas num cofre grande." Com um gesto com os braços mostra o tamanho do cofre, que tinham na casa onde moravam na Pedreira dos Húngaros. Os vizinhos passaram a tomar conta. "De mim e da minha falecida irmã." A irmã morreu do vírus (da SIDA). O pai também."


GIN

Publicado por agineotonico às abril 19, 2004 11:56 PM