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abril 26, 2004

Jogo do "Ser e do Parecer"

(Dos afectos à construção da Sociedade Democrática)

Quando se fala em democracia, nas sociedades de hoje, não consigo deixar de pensar em certos pais que são tolerantes com os seus filhos enquanto eles fazem o percurso que, do seu ponto de vista, consideram adequado, mas que, quando os filhos se autonomizam e decidem um percurso de vida diferente ao que lhes “estava destinado”, lhes “apertam os calos” através de medidas que vão desde o “corte da mesada”, até à agressão verbal e física.
O mesmo se passa ao nível social: enquanto nos mantivermos na “linha”, passivos perante as políticas económicas e sociais postas em marcha, temos a tolerância do poder. Quando tomamos uma atitude activa de contestação, então, “apertam-nos os calos” através de medidas que vão desde o controle da comunicação social, passam por exclusão dos “críticos”, pela liberalização do emprego e, se for necessário, pela repressão policial.
E, tal como os pais que utilizam o dinheiro para controlar, agradar ou punir os filhos, o poder económico também arranja estratégias de alienação para impedir a contestação.
Muito se fala da sociedade que apela ao consumismo. É verdade que este é uma necessidade do poder económico, mas a forma como esse apelo é feito tem efeitos perversos na socialização e, consequentemente, na construção individual dos valores que guiam as nossas expectativas e as nossas condutas.
Fala-se, então, da crise de valores que enferma as sociedades actuais. O discurso do poder não nos impede de falar sobre estes assuntos como noutros tempos, pelo contrário, são os primeiros a diagnosticar as situações, mas atribuem-nos individualmente as culpas quando é ele próprio a fornecer os meios.
Cria-se o “modelo” do humano bonito, rico e feliz consigo próprio, ridiculariza-se e despreza-se o ser humano solidário – “ou tens as minhas ideias e fazes o que eu quero, ou estás contra mim e não tens lugar no nosso mundo”.
Temos relações de competitividade desleal, fora do circuito da competência, temos a vida construída sobre falsos pressupostos, sobre o “parecer ser”, perdemos a maior parte das nossas energias a lutar para pagar os custos dessa aparência imposta e ficamos sem tempo para “olhar” para nós e para os outros, os nossos filhos incluídos.
Neste jogo do “ser e do parecer”, incluem-se tanto os aspectos de carácter económico, como, em muitos casos, aspectos ligados à afirmação intelectual, à chamada “cultura”.
Se nuns vemos um “vazio cultural” e um enfoque na aparência de riqueza material, noutros vemos um “vazio cultural” e um enfoque num discurso democrático deslocado da prática individual que leva, muitas vezes, à incoerência na análise das situações concretas.
Uns e outros são filhos dos mesmos pais, varia apenas as diferenças individuais sobre as quais se constróem. Ambos são capazes de olhar para dentro de si, mas são cegos e surdos para algumas das suas áreas.
Contudo, restam ainda algumas “ovelhas ranhosas” desta grande família ... aqueles que acreditam que é possível construir uma vida pessoal e social baseada em bases sólidas de solidariedade humana.


GIN

Publicado por agineotonico às abril 26, 2004 02:12 PM