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abril 18, 2004

Educação e vulnerabilidade

Hoje, apetece-me falar da infância, em particular dos meninos e meninas das periferias das nossas cidades, dos nossos bairros de realojamento que vieram substituir os bairros de lata. Apetece-me falar dos que foram e são violados, aviltados, achincalhados de todos os direitos e que, só por mero acaso, não foram privados do direito à sobrevivência (que falar de direito à vida seria excessivo).
Quero falar dos sobreviventes, daqueles que não morreram nos primeiros anos de vida, daqueles que têm agora entre 8 e 16 anos.
Eles imitam esta sociedade, reproduzem a forma como sentem que são tratados e, por isso, eles utilizam, por exemplo, os assaltos aos comboios, às pessoas, aos bens dos outros, eles destroem as escolas e agridem os professores, eles abandonam as escolas.
Na realidade, eles não querem destruir as escolas, porque é lá que têm alguns amigos, é lá que arranjam namoradas/os, é lá que, mesmo que inconscientemente, sentem que alguma coisa poderia vir a ser diferente e é lá que, muitas vezes, encontram alguns adultos/professores que os tratam pelo nome próprio e lhes servem de referência. Quando praticam a destruição das escolas, eles estão apenas a querer questionar as relações autoritárias que ali dentro se desenvolvem, aquela metodologia que não os ajuda, aqueles conteúdos que não lhes servem para a vida.
Ao serem marginalizados pelo sítio onde vivem, pelas condições de vida que têm, pelas suas dificuldades, pela imagem que a sociedade lhes devolve, estes meninos/jovens formam de si mesmos uma imagem negativa que constitui uma das causas para a permanência do problema. Esta auto-imagem acaba por os condicionar a um círculo vicioso, onde as suas experiências não se projectam para o futuro, pois pouco contribuem para as suas vidas fora do contexto das ruas, do contexto dos seus próprios bairros marginalizados.
A pobreza extrema, a desintegração familiar, a falta de alternativas e de suporte social, são factores que levam estes meninos/jovens a escolher as ruas e a abandonar a escola e, muitas vezes, as suas próprias casas.
Em muitos países, a consciencialização pública sobre as causas e as possíveis soluções do problema não se reflectem em medidas práticas, não passam das declarações de princípios dos responsáveis do poder, ou de imagens distorcidas fornecidas pela comunicação social.
Inventam-se uns programas de carácter assistencial, que se resume a “uns favores” do Estado, sempre temporários, sempre levados à prática por mão de obra barata (estagiários de cursos da área das ciências sociais), sempre sem qualquer perspectiva séria de implementação de medidas sócio-educativas (essas limitam-se a ficar no papel), de medidas que visem mudar o curso de vida destes jovens que se sentem encurralados.
Agora inventa-se a punição e responsabilização das famílias pelos actos dos seus filhos. Esta atribuição de responsabilidade significa um aumento da violência sobre estas crianças e jovens e visa apenas satisfazer o incómodo que causa a subida dos números da criminalidade, a vergonha dos números do abandono escolar.
O Estado, que tem vindo a degradar as condições de vida da população, pela mão dos responsáveis das pastas da Segurança Social, da Educação, da Saúde, da Justiça, tenta desresponsabilizar-se pela situação que ele próprio tem vindo a criar e torna as famílias no bode expiatório da sua política. O Estatuto da Criança e do Adolescente atribui ao Estado responsabilidades específicas no que diz respeito ao direito à vida, à saúde, à educação, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
Este estatuto da criança e do adolescente, atribui, também, às famílias essas competências e o dever de assegurar esses direitos. Mas muitas delas estão em tal situação de miséria e fragilizadas que seria necessário direccionar estruturas de apoio para as ajudar a lidar com a situação irregular dos seus filhos e não medidas punitivas e de culpabilização por uma situação que sai fora das suas capacidades.


GIN

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Publicado por agineotonico às abril 18, 2004 09:35 PM