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abril 18, 2004

E calamos, calamos porque estamos presos a uma indefinição do conceito

A ocupação militar do Iraque, toda a gente sabe, nada tinha a ver com o 11 de setembro, nem com o combate ao “terrorismo”, nem com as armas de destruição maciça. A ocupação do Iraque, torna-se cada vez mais claro, faz parte de uma estratégia dos Estados Unidos de dominação do mundo. Como diz Luís Delgado, parafraseando Bush, "também não é difícil antever, se Bush ganhar as eleições, que países como o Irão e a Síria estarão na lista de prioridades políticas e militares da Casa Branca. Ou mudam como a Líbia, ou alguém os muda."

Não deixa também de ser curioso que, por exemplo, o blog mais lido neste nosso “clube” – Barnabé – nada tivesse dito sobre este último assassinato na Palestina, ou ainda o “BdE” que nada disse também, ou o “Grão de Areia” que fez uma referência sem grande tomada de posição terminando com um breve “a política israelita é para continuar e com o apoio claro dos EUA.” (dados recolhidos esta manhã).
Outros blog, fazem referências tipo “a única forma de acabar com o terrorismo é eliminar os líderes do terrorismo” e por aí fora ... não fui ver os blog de quem costuma beber um copo celebrando cada assassínio cometido por Israel.

Na comunidade internacional
"O secretário-geral condena o assassinato por Israel do chefe do Hamas Abdelaziz al-Rantissi", afirma um comunicado divulgado pelo porta-voz de Annan”, como se vê falam os “porta-voz”.

A União Europeia declarou ontem, após uma reunião dos seus ministros dos Negócios Estrangeiros ... que a retirada israelita da Faixa de Gaza proposta pelo primeiro-ministro israelita Ariel Sharon é "um passo significativo no 'Roteiro' para a paz”. Esta posição constitui um recuo da EU que, anteriormente, tinha considerado que estava fora de questão as afirmações de Sharon de não abandonar os territórios ocupados.

Com tudo isto, parece-me que Israel e os Estados Unidos, estão a conseguir levar à prática todas as suas intenções:
- misturar dentro do mesmo saco “os terroristas”, seja os que cometem um acto como o 11 de Setembro ou o 11 de Março, seja aqueles que integram organizações de países ocupados e alvo de violência militar sistemática como é o caso da Palestina;
- assassinar quem lhes apetece, porque não lhes passa sequer pela cabeça que toda a pessoa tem direito a um julgamento justo;
- prosseguir com a ocupação militar de qualquer território que cobicem;
- calar a boca a todos os cidadãos do mundo a pretexto que todos “os outros” não passam de terroristas e, por isso, alvos a abater justificadamente;
- aproveitar o passado do povo judeu para reforçar um estranho sentimento culpa que nos faz sentir permanentemente em dívida, para justificar as atrocidades cometidas por Israel sobre os palestinos e conseguir que se faça silêncio ou frágeis condenações dos seus actos.

Enquanto isso, vamos assistindo com algum mal estar a esta escalada de inqualificável violência e prepotência dos países mais poderosos militarmente, sobre pessoas e povos com menos capacidades militares.

E calamos, calamos porque estamos presos a uma indefinição do conceito de “terrorista” que nos impuseram, porque tememos que nos chamem radicais, que nos englobem no mesmo saco dessa indefinição.

Ficamos presos ao estereótipo de “civilizado”, de “ocidental”, de “democratas”, ficamos presos ao silêncio imposto pelos novos donos do mundo.

Sem dúvida que os novos donos do mundo nos têm sabido calar, nos têm sabido remeter ao papel passivo que lhes convém ....


GIN

Publicado por agineotonico às abril 18, 2004 12:15 PM

Comentários

A sua lucidez e frontalidade espantam-me!
Isto porque o meio editorial português (e a blogosfera, mesmo que um pouco mais desanuviada, revela o quanto tememos resvalar para lá das fronteiras do politicamente correcto) é dado a arrastar a asa a indivíduos, instituições e organizações que eventualmente possam ser-lhe utéis, pragmatismo mercantilista e daí não passa, salvo rara excepção.
Somos especializados na fraude, na mentira interesseira e por aí fora...
Não passa disto, se a pobreza endémica que assola este país, estivesse ao nível da consciência cívica e civilizacional, a miséria tornar-se-ia incomportável.
Desprezamos os princípios éticos, os valores morais, que se lixem as futuras gerações, que se lixe o ambiente, que se lixem os princípios humanistas, enfim...
Mas pelos vistos somos felizes, recorrendo é certo, cada vez mais, aos anti-depressivos, aos ansiolíticos,etc... diria que a nossa existência está cada vez mais narcotizada, e sem emenda, ao que parece.
Para finalizar, quero felicitá-la pela qualidade dos textos que tem vino a editar.

Publicado por: Rodrigo Ribeiro às abril 18, 2004 07:48 PM

Como aparece hoje no publico, na entrevista - terrível e preocupante - a um dirigente islâmico em londres, vivemos um "Tempo de assassinos"...

Morfeu

Publicado por: morfeu às abril 18, 2004 12:45 PM