« MURO DA VERGONHA | Entrada | Recursos para aprofundar a exclusão »
março 07, 2004
MURO DA VERGONHA (2)
O muro de separação com os territórios ocupados da Cisjordânia que está a ser construído por Israel anexa terras férteis e corta meios de subsistência aos palestinianos. Um repórter do EI País percorreu o seu traçado
FERRAN SALES
Todas as manhãs, Noar acorda angustiada do outro lado do muro. Ainda não nasceu o dia, mas sabe que tem o tempo à justa para fazer a comida, dar uma limpeza na casa, tomar um café e estar junto do portão do muro antes que os soldados o fechem. Só assim poderá chegar a horas à escola. Se tivesse parado um instante, talvez tivesse ouvido os suspiros dos seis filhos e os roncos do marido, ainda na cama. Mas não pode parar. O muro alterou-lhe a vida quando acabava de fazer 38 anos.
Noar caminha depressa, meio a correr, pelas ruas desertas de Kalkilia, enquanto ajusta na cabeça o véu branco do jiyab. Mete-se com um suspiro no velho táxi amarelo que, com o motor a trabalhar, está já à espera na esquina. Foi a última a chegar. Vai viajar em silêncio com as suas cinco companheiras, todas professoras na escola oficial da vizinha aldeia de Habla, onde desde há oito anos ensina Inglês.
O carro deixou para trás as últimas casas de Kalkilia e avança já por um caminho de terra, entre laranjais. O motorista começou a abrandar, para finalmente pisar com raiva o pedal do travão e parar a meio do caminho. Não pode continuar. Uma dupla cerca de arame, coroada por espigões, holofotes e câmaras de vigilância, anuncia que o trajecto acabou. Por entre as malhas da cerca avista uma estrada alcatroada por onde só podem circular os blindados israelitas. O caminho de terra que liga Kalkilia a Habla continua do outro lado de uma cancela fechada Junto do portão, há um cartaz em árabe, hebreu e inglês a proibir a passagem. A cerca está electrificada. Já é dia. Este é o muro.
Noar e as outras professoras esperam pacientemente diante do portão n.o 30, denominado nos mapas militares por Porta do Sul de Kalkilia. Oficialmente, os portões são abertos três vezes ao dia por um período máximo de uma hora. Hoje os soldados voltaram a atrasar-se. Quando finalmente aparecem, rindo, armados e de camuflado, dizem que o encarregado das chaves não as encontrava. A desculpa não é nova. Ontem repetiram o mesmo sórdido embuste na porta, onde 20 alunos esperavam há três horas. Na verdade, as cancelas são abertas e fechadas de forma arbitrária, caprichosa. As normas que regulam a abertura, ditadas pelo comando militar, mudam de dia para dia.
«Hoje podemos passar. Mas vamos chegar à escola demasiado tarde para cumprir os horários», exclama Noar quando cruza por fim as cancelas e se dirige para a porta da escola. Q caminho de casa para a escola, que há meses fazia em 15 minutos, implica agora uma Viagem de três a quatro horas. As regras militares impostas para hoje proíbem a passagem pelo portão aos menores de 28 anos, o que deixará em casa a maioria dos alunos.
O assalto à Palestina
Kalkilia (85 mil habitantes) ficou para trás fechada no interior de uma grande bolsa de ferro e cimento a que se acede por uma única entrada, Vigiada pelos soldados. Os engenheiros desenharam uma muralha longa e sinuosa para separar a cidade dos colonatos judaicos das redondezas. A cerca rodeia a zona urbana e separa-a dos seus campos. Os 6 300 agricultores que davam Vida a região não podem aceder às suas terras. As hortas ficaram do outro lado do muro. Neste ponto, a construção da cerca serviu de desculpa aos israelitas para se apropriarem de um terço dos recursos hídricos da cidade e confiscarem 35% das terras aráveis. Kalkilia já perdeu mais de 4 mil habitantes, 600 lojas fecharam e a taxa de desemprego ronda os 70 por cento. Se a pressão se mantiver, Israel conseguirá fazer emigrar o resto da população e apropriar-se das terras todas.
«Ficar em Kalkilia transformou-se num acto de resistência. A actividade comercial paralisou. A agricultura, um dos sectores-chave da nossa economia, é agora impossível. Uma grande parte da população vive graças à ajuda das organizações humanitárias como a ONU e a Cruz Vermelha. A nossa cidade está morta. E como se nos tivessem posto uma corda ao pescoço. Querem que saiamos da nossa terra. Mas não vão conseguir. Este é o nosso país», garante o presidente da Câmara, Maarouf Zahran, 47 anos, pai de cinco filhos, licenciado em Literatura pela Universidade do Cairo e professor. Grande parte da população optou também por ficar.
Kalkilia não é um fenómeno isolado. O Governo israelita fez do município um laboratório onde ensaia fórmulas de clausura que depois aplica noutras localidades paletinianas. Os 150 mil habitantes de TuIkarem são os segundos enclausurados.
Esta povoação aristocrática, onde se encontram os lagares de azeite mais importantes da Palestina, sente já os efeitos da clausura. Para poderem construir o muro, os soldados arrancaram pela raiz mais de 50 mil oliveiras, na maioria centenárias. As indústrias de materiais de construção e as pedreiras encerram a pouco e pouco e despedem trabalhadores. O desemprego atinge mais de 5% da população.
«Estão a destruir tudo. Muitas povoações da zona só com grandes dificuldades conseguem água para beber. A espoliação é permanente, imparável», queixa-se o presidente da Câmara de Tulkarem, Mahmud Jallad, 55 anos, pai de quatro filhos e engenheiro industrial. Sentado à sua secretária, junto de uma foto de Arafat, esboça um panorama desolador. Afirma que a construção do muro tem por objectivo anular a pujante economia de uma das cidades palestinianas mais próximas do território Israelita, a pouco mais de 17 quiilómetros, em linha recta, do mar. Do alto das suas colinas avista-se Telavive.
O muro resolve de um ápice as ambições do Governo israelita, quase tomando realidade o sonho do «Grande Israel» do Mediterrâneo ao Jordão. O muro prolonga-se de norte para sul, mas também se interna para leste, em território palestiniano, violando a «linha verde» que separa Israel dos territórios ocupados em 1967, futura fronteira dos dois Estados. Quando a construção estiver concluída, 200 mil Palestinianos ficarão emparedados, concentrados em nove enclaves que, no conjunto, terão cerca de 1 000 km2. No mapa, fica a sensação de que estas povoações ficaram em terra de ninguém, mas na realidade pertencem à Palestina.
As crianças na 'frigideira'
O exército israelita declarou estes enclaves «zonas fechadas» e começou a arrogar-se o controlo da população, usurpando muitas das funções que, segundo os Acordos de Oslo, eram asseguradas pela Autoridade Palestiniana. Os militares ditaram em tempo recorde quatro decretos marciais organizando a vida dos habitantes. A partir de agora, estes precisam de autorizações de residência para continuarem a viver nas suas casas e de salvo-condutos para entrarem e saírem por certos portões. Existem 12 autorizações diferentes. Há passes para médicos, professores, estudantes, agricultores, jovens, reformados, donas de casa, políticos, criminosos...
Jubara, cerca e cinco quilómetros a sul de Tulkarem, tem 500 habitantes. Acaba de ser transformada numa ilha. Por um lado, o muro impede os seus habitantes de chegarem a Tulkarem, ao mercado e à zona de serviços; por outro, os soldados impedem-lhes o acesso a Israel. A sua sobrevivência depende da arbitrariedade dos soldados. Precisam da autorização deles para ir comprar, vender, trabalhar. consultar o médico, assistir a enterros ou reunir-se com amigos e familiares. A sua vida ficou reduzida a poucas dezenas de quilómetros quadrados. O único consolo é a mesquita; a única diversão é a televisão. «Vivemos isolados do mundo. Estão a tornar-nos a vida impossível para nos obrigarem a partir. Mas decidimos ficar. Esta é a nossa terra», afirma Ahmed Massud, 52 anos, pai de sete filhos, antigo professor e agora agricultor desempregado. Os seus campos ficaram. com os de todos do outro lado do muro. Este ano ninguém irá colher as azeitonas nem as laranjas.
Esta manhã, um grupo de crianças da aldeia atravessou a brincar as linhas israelitas e acabou aprisionado pelos soldados. Enfiaram três delas numa minúscula caixa de cimento Junto da estrada, perto do posto de controlo. Permanecem de cócoras, com os corpos apertados. Têm os calções molhados de urina; os olhos vermelhos de chorar. De vez em quando, lançam gritos a pedir para voltarem para casa. Então, a bota do soldado balança-se por cima dos seus corpos. A ameaça fazê-los calar. Quando chegar a noite, deixam-nos ir em liberdade. Até os mais pequenos, em Jubara, estão a aprender a viver enclausurados.
Enjaulados em sua casa
O muro também destruiu Bartha (7500 habitantes), a meio caminhoo entre Tulkarem e Jenin. A povoação está dividida desde 1948, quando foi proclamado o Estado de Israel. Uma parte dos habitantes adquiriu a nacionalidade israelita e a outra ficou palestiniana. Hoje, cerca de 4 mil pessoas vivem em Bartha-Leste, onde ondula a bandeira palestiniana; os outros 3 500 vivem em Bartha-Oeste sob a bandeira de Israel. Durante anos, nada nem ninguém parecia separar as duas partes. Não havia fronteira visível. Todos falavam a mesma língua - o árabe.
O muro fez ir pelos ares o equilíbrio de Bartha. A cerca não coincide com a «linha verde», que passava pelo meio da cidade. O muro foi construído a três quilómetros do núcleo urbano e fechou à comunidade palestiniana o caminho para Jenin, o seu principal centro comercial e assistência. Os habitantes de Bartha-Leste ficaram sem saídas: o muro impede-os de irem à Palestina e os soldados de irem a Israel.
«Bartha-Leste é hoje um gueto. Vivemos numa prisão. Há semanas que o caminho para Jenin está encerrado. Não posso chegar ao meu posto de trabalho na delegação do Ministério dos Transportes da Autoridade Palestiniana», afirma Ghassan Qabha, 39 anos, engenheiro industrial, pai de quatro filhos e presidente da Câmara desta zona da cidade.
Suleiman Zewahra, 48 anos, pai de seis filhos, lutou um ano nos tribunais de Jerusalém para salvar a sua casa. Os juizes ordenaram aos militares que a poupassem. Mas não puderam impedir que o muro, ali transformado em vedação, invada o jardim e rodeie a casa. A família Zewahra está hoje metida numa jaula.
«Vieram os soldados e disseram: É melhor que te vás embora: Respondi que esta era a minha casa. Construí-a há quatro anos. Gastei nela as poupanças de toda a vida. Fechei-lhes a porta e fui buscar um advogado. Consegui salvá-la, mas perdi tudo o resto; quer dizer, a maior parte do jardim. Deixaram-me o imprescindível. Mas até tentaram arrancar-me à força o pouco que me restava», explica Suleiman Zewahra. Com o dedo indicador aponta as fendas que as trepidações das escavadoras abriram nas paredes da casa.
Embora afectada, a casa de Suleiman Zewahra permanecerá no alto da colina de AI Diek, no bairro cristão de Beit Sahur, perto de Belém. Do seu terraço, pode observar-se o traçado de um muro que avança demolidor, com o objectivo de circunscrever toda a cidade. As escavadoras ameaçam isolar toda a povoação (154 mil habitantes) e cortar o fluxo de turistas e peregrinos. A construção da cerca pode mesmo implicar a demolição de um grupo de sete edifícios, num total de 49 apartamentos, onde vivem 25 famílias cristãs."
«Esta urbanização é um projecto ambicioso com o qual se procura proteger as comunidades cristãs na Terra Santa, impedindo a sua emigração. É o mais importante da Palestina. Procura dar alojamento a todos os cristãos por igual, embora esteja construí do em terrenos que o Patriarca Ortodoxo Grego nos alugou por 99 anos. Agora, dá abrigo a 25 famílias. Se o conseguíssemos terminar, viveriam aqui 135 ou mais», afirma o seu promotor, o médico Jader Kokaly, de 40 anos.
O Dr. Kokaly começou uma batalha desigual contra o exército israelita. O seu objectivo é desviar o traçado do muro e salvar o complexo da demolição. A última proposta do comando militar prevê deixar as suas casas isoladas, entre o muro e a fronteira, nessa aparente terra de ninguém, mas dotando os habitantes de uma porta de acesso. As chaves ficariam no bolso dos soldados. Os habitantes não aceitam e não acreditam que possa ser alcançada uma solução razoável. Volta a desenhar-se no horizonte o fantasma da emigração e do exílio. Por agora, a decisão é clara: ficar.
«Bulldozers » na Cidade Santa
Em Jerusalém Oriental ,três comunidades religiosas cristãs conseguiram deter a construção do muro, que deve envolver os 31 bairros árabes da Cidade Santa para isolar mais de 200 mil cidadãos. Essa acção conjunta, apoiada pelo Patriarca Latino e pelos consulados da França e da Itália, conseguiu congelar as obras no momento em que as escavadoras, provenientes do monte das Oliveiras, se preparavam para o assalto e dispunham a descer sobre o bairro muçulmano de Abu Dis.
“As escavadoras pararam por agora, mas lá se apropriaram de uma parte considerável da nossa herdade, onde se encontra a nossa casa-mãe e o orfanato onde vivem mais de 40 crianças palestiniana», diz a madre superiora das Irmãs da Caridade, a irmã Josefina, de 80 anos, natural de Turim (Itália), apontando uma faixa limpa e desmatada com mais de cem metros de largura que desce da montanha, invade o seu território e parece querer atropelar outros conventos próximos.
Abu Dis (10 mil habitantes), sede da Universidade Al-Quods e do futuro Parlamento da Autoridade Palestiniana, transformou-se em símbolo da resistência. Neste interminável compasso de espera, a população pergunta angustiada se o milagre irá ocorrer. Conseguirão as freiras cristãs parar as obras? Acabará o muro por dividir o bairro? Todos os dias, os soldados trazem um novo rumor. Os blocos de betão que fecham a velha estrada que ligava o centro de Abu Dis ao centro de Jerusalém e permitia aos fiéis irem orar na mesquita de Al-Aqsa, recordam-lhes a ameaça.
«Sabe se poderemos salvar a nossa casa?, pergunta Usama Zahaikeh, 40 anos, construtor, pai de três filhos e habitante de outro bairro árabe, o de Sawahre. Sem esperar uma resposta, começou a montar uma tenda num largo. Dali segue a evolução das escavadoras. A sua tenda transformou-se em ponto de informação sobre o muro. As patrulhas do exército levaram-no, com outras 45 famílias. Ameaçaram-no para que abandonasse a casa. Os militares avisam que não querem complicações e reclamam um terreno vazio para Implantarem o muro.
«Não conseguirão expulsar-nos», exclama Zahaikeh. Por detrás dele, permanece atenta uma massa compacta de 30 mil habitantes. Ouve-se a voz do muezzin no alto do minarete da mesquita. Os palestinianos procuram sobreviver.
(in Visão Nº 572)
GIN
Publicado por agineotonico às março 7, 2004 07:40 PM
Comentários
E depois de tudo isso, só se consegue pensar em quanto mais poderemos nós aguentar impávidos.
Publicado por: Rui às março 22, 2004 08:20 PM