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março 30, 2004
OBESIDADE MENTAL
Foi em 2001 que o prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro Mental Obesity. Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.
«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»
Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. Os cozinheiros desta magna fast food intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»
«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas. Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»
«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.»
«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»
«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.»
«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo. Não se trata de uma decadência, uma "idade das trevas" ou o fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.»
(PS: não conheço o autor, não li o livro. Apenas li isto que me mandaram e achei oportuno)
GIN
Publicado por agineotonico às 01:25 AM | Comentários (1)
março 28, 2004
O abraço solidário a João Tilly
SNS: como se deixa morrer um homem por falta de assistência
Não posso deixar de colocar aqui o testemunho de uma aberração ...
GIN
Publicado por agineotonico às 11:44 PM
março 26, 2004
Internacionalizar a Amazónia?
Discurso do Ministro Brasileiro de Educação dá Show nos EUA!
Durante um debate no State of the Wold Center, Nova York, o ex-governador do Distrito Federal e Ministro da Educação brasileiro, CRISTOVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia. Ao fazer a pergunta, o entrevistador americano disse-lhe que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro.
Esta foi a resposta do Sr. Cristóvão Buarque :
"De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia: por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização - como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro ...
O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro: apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado: se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, é obvio que não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país; mas queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais, não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo! O Louvre não deve pertencer apenas à França, cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano: não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Há pouco tempo, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre: antes de se cumprir esta estranha vontade, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Enquanto decorre este nosso encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio: mas os presidentes de alguns países tiveram dificuldades em comparecer, por constrangimentos na fronteira dos EUA.
Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada, pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife - cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA; até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida externa brasileira. Comecemos por usar essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro, ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa !.
Fonte: Matéria publicada no "The New York Times", "Washington Post", "Today", e em vários dos maiores jornais da Europa e do Japão
GIN
Publicado por agineotonico às 01:39 PM | Comentários (3)
março 23, 2004
Contactos do Ministro Bago Feliz
“O Ministério da Segurança Social e do Trabalho reage ao problema da pobreza em Portugal alegando que, se tivesse números, as pessoas não passariam fome, porque seriam localizadas e alimentadas. E acrescenta que o problema da pobreza está em estudo por um departamento do ministério.”
Nada melhor do que, enquanto se espera pelo estudo que está a ser feito sobre “o problema da pobreza”, ceder a todas as pessoas que estão em dificuldade os contactos do gabinete do Sr. ministro para lhe ligarem a dar a “localização dos necessitados de alimentos”.
Com a disponibilidade que Bagão Félix (ou Bago Feliz?) demonstrou, certamente aceitará chamadas a cobrar no destino.
Aqui vão os contactos
Ministro da Segurança Social e do Trabalho
Dr. António José de Castro Bagão Félix
Chefe de Gabinete:
Dra. Rita Magalhães Collaço
Secretariado
Telefone: 21 842 41 00
Fax: 21 842 41 15
Praça de Londres, 2 - 16.º
1049-056 LISBOA
Correio Electrónico: gmsst@msst.gov.pt
Página Internet: http://www.msst.gov.pt
GIN
Publicado por agineotonico às 10:26 PM | Comentários (1)
Milhões de imagens na net
Saiu recentemente nos órgãos de comunicação social uma notícia que dava conta que estavam a ser colocadas na net 5 milhões de fotografias sobre a II Grande Guerra Mundial. A organização e divulgação destas fotos, que faziam parte de um arquivo da força aérea britânica, está entregue à universidade de Keele, em Inglaterra.
Quando li esta notícia não pude deixar de pensar porque razão teria sido escolhido este momento para a sua divulgação ...
Sentimentos de culpa face ao resultado obtido sobre a opinião dos europeus em relação à política do actual governo Israelita?
Tentativa de justificação pública para a contradição do apoio de executivo de Blair à invasão do Iraque enquanto Israel continua a invadir violentamente os territórios palestinos?
Tentativa de mostrar ao povo de Israel e aos judeus de todo o mundo o passado recente do seu povo e a obrigação moral de impedir que o governo israelita prossiga com a limpeza étnica do povo palestino?
Agora, depois dos recentes acontecimentos, as questões que me surgem são diferentes:
Visava criar as condições necessárias para os europeus aceitarem os actos de terrorismo israelita contra figuras carismáticas palestinas, que se sabe irão desencadear uma onda de ataques (a que cinicamente Israel chama de terroristas) e assim justificar a continuação da limpeza étnica, enquanto os governos ocidentais se limitam a uns frágeis gemidos de condenação?
Ou entretenimento enquanto se cumpre um plano deliberado de colonização/ocupação do Médio Oriente pelas potências americana/inglesa e que passa por apoiar Israel na ocupação de territórios palestinos?
GIN
Publicado por agineotonico às 10:05 PM
Recursos para aprofundar a exclusão
Os partidos com assento parlamentar estão de acordo que é preciso aumentar os recursos de combate à pobreza.
Mesmo não concordando com as orientações propostas por alguns dos outros partidos, não poderia deixar de me referir à clareza com que Patinha Antão expõe a orientação política que o governo pretende dar nesta sua acção de combate à pobreza.
“O enfoque dos partidos da maioria (PSD e CDS-PP) é, contudo, diferente. Por entender que as dependências do alcoolismo e das drogas ou doenças como a sida são a causa de muita da pobreza que exista, o deputado do PSD Patinha Antão destaca o Plano Nacional de Saúde, que prevê um reforço no apoio a estes grupos.”
Este discurso não é nada inovador, é característico das políticas neoliberais: amplia-se a pobreza e aprofundam-se as desigualdades através das opções económicas.
De seguida, fazem-se uns programas de assistência focalizada e dirigidos a grupos sociais vulneráveis.
Para estes programas focalizados, são direccionadas verbas que apenas garantem condições mínimas a estas populações.
De uma assentada, poupa-se no Sistema de Saúde e de Segurança Social (que entretanto vão sendo privatizados) e arranja-se uma forma de, com base legal, acabar com os direitos constitucionais de igualdade de acesso e usufruto daqueles sistemas.
Num país onde o desemprego tem aumentado a um ritmo acelerado e os salários não acompanham o aumento do custo de vida é, no mínimo, de uma grande hipocrisia dizer que os mais de 200 mil cidadãos que passam fome no nosso país são drogados, alcoólicos e portadores de doenças e que, para esses, o governo “destaca o Serviço Nacional de Saúde.
É hipocrisia e uma hipocrisia perigosa porque muitos portugueses não entendem que vão, na sua maioria, sofrer com esta orientação política que vai subverter os actuais sistemas de saúde e segurança social.
Está aqui em discussão, não só as dificuldades acrescidas com que vamos ser confrontados com a privatização dos Sistemas de Saúde e Segurança Social ou com o encarecimento dos subsistemas, mas também está em discussão a cidadania.
É que a cidadania implica igualdade de acesso e usufruto dos sistemas de serviços disponíveis na nossa sociedade, implica também que as políticas que se definem não assentem apenas sobre lógicas de necessidade mas, acima de tudo, em lógicas de direito, de direito dos cidadãos.
Programas focalizados, que não sejam meramente circunstanciais e para suprir necessidades que situações extraordinárias causaram, são uma forma de consolidar a crescente exclusão social.
O que o governo se está a propor fazer é minorar a pobreza e não a tomar medidas no sentido da sua superação; o que o governo se está a propor fazer é aprofundar e consolidar a exclusão social.
GIN
Publicado por agineotonico às 07:18 PM
março 07, 2004
MURO DA VERGONHA (2)
O muro de separação com os territórios ocupados da Cisjordânia que está a ser construído por Israel anexa terras férteis e corta meios de subsistência aos palestinianos. Um repórter do EI País percorreu o seu traçado
FERRAN SALES
Todas as manhãs, Noar acorda angustiada do outro lado do muro. Ainda não nasceu o dia, mas sabe que tem o tempo à justa para fazer a comida, dar uma limpeza na casa, tomar um café e estar junto do portão do muro antes que os soldados o fechem. Só assim poderá chegar a horas à escola. Se tivesse parado um instante, talvez tivesse ouvido os suspiros dos seis filhos e os roncos do marido, ainda na cama. Mas não pode parar. O muro alterou-lhe a vida quando acabava de fazer 38 anos.
Noar caminha depressa, meio a correr, pelas ruas desertas de Kalkilia, enquanto ajusta na cabeça o véu branco do jiyab. Mete-se com um suspiro no velho táxi amarelo que, com o motor a trabalhar, está já à espera na esquina. Foi a última a chegar. Vai viajar em silêncio com as suas cinco companheiras, todas professoras na escola oficial da vizinha aldeia de Habla, onde desde há oito anos ensina Inglês.
O carro deixou para trás as últimas casas de Kalkilia e avança já por um caminho de terra, entre laranjais. O motorista começou a abrandar, para finalmente pisar com raiva o pedal do travão e parar a meio do caminho. Não pode continuar. Uma dupla cerca de arame, coroada por espigões, holofotes e câmaras de vigilância, anuncia que o trajecto acabou. Por entre as malhas da cerca avista uma estrada alcatroada por onde só podem circular os blindados israelitas. O caminho de terra que liga Kalkilia a Habla continua do outro lado de uma cancela fechada Junto do portão, há um cartaz em árabe, hebreu e inglês a proibir a passagem. A cerca está electrificada. Já é dia. Este é o muro.
Noar e as outras professoras esperam pacientemente diante do portão n.o 30, denominado nos mapas militares por Porta do Sul de Kalkilia. Oficialmente, os portões são abertos três vezes ao dia por um período máximo de uma hora. Hoje os soldados voltaram a atrasar-se. Quando finalmente aparecem, rindo, armados e de camuflado, dizem que o encarregado das chaves não as encontrava. A desculpa não é nova. Ontem repetiram o mesmo sórdido embuste na porta, onde 20 alunos esperavam há três horas. Na verdade, as cancelas são abertas e fechadas de forma arbitrária, caprichosa. As normas que regulam a abertura, ditadas pelo comando militar, mudam de dia para dia.
«Hoje podemos passar. Mas vamos chegar à escola demasiado tarde para cumprir os horários», exclama Noar quando cruza por fim as cancelas e se dirige para a porta da escola. Q caminho de casa para a escola, que há meses fazia em 15 minutos, implica agora uma Viagem de três a quatro horas. As regras militares impostas para hoje proíbem a passagem pelo portão aos menores de 28 anos, o que deixará em casa a maioria dos alunos.
O assalto à Palestina
Kalkilia (85 mil habitantes) ficou para trás fechada no interior de uma grande bolsa de ferro e cimento a que se acede por uma única entrada, Vigiada pelos soldados. Os engenheiros desenharam uma muralha longa e sinuosa para separar a cidade dos colonatos judaicos das redondezas. A cerca rodeia a zona urbana e separa-a dos seus campos. Os 6 300 agricultores que davam Vida a região não podem aceder às suas terras. As hortas ficaram do outro lado do muro. Neste ponto, a construção da cerca serviu de desculpa aos israelitas para se apropriarem de um terço dos recursos hídricos da cidade e confiscarem 35% das terras aráveis. Kalkilia já perdeu mais de 4 mil habitantes, 600 lojas fecharam e a taxa de desemprego ronda os 70 por cento. Se a pressão se mantiver, Israel conseguirá fazer emigrar o resto da população e apropriar-se das terras todas.
«Ficar em Kalkilia transformou-se num acto de resistência. A actividade comercial paralisou. A agricultura, um dos sectores-chave da nossa economia, é agora impossível. Uma grande parte da população vive graças à ajuda das organizações humanitárias como a ONU e a Cruz Vermelha. A nossa cidade está morta. E como se nos tivessem posto uma corda ao pescoço. Querem que saiamos da nossa terra. Mas não vão conseguir. Este é o nosso país», garante o presidente da Câmara, Maarouf Zahran, 47 anos, pai de cinco filhos, licenciado em Literatura pela Universidade do Cairo e professor. Grande parte da população optou também por ficar.
Kalkilia não é um fenómeno isolado. O Governo israelita fez do município um laboratório onde ensaia fórmulas de clausura que depois aplica noutras localidades paletinianas. Os 150 mil habitantes de TuIkarem são os segundos enclausurados.
Esta povoação aristocrática, onde se encontram os lagares de azeite mais importantes da Palestina, sente já os efeitos da clausura. Para poderem construir o muro, os soldados arrancaram pela raiz mais de 50 mil oliveiras, na maioria centenárias. As indústrias de materiais de construção e as pedreiras encerram a pouco e pouco e despedem trabalhadores. O desemprego atinge mais de 5% da população.
«Estão a destruir tudo. Muitas povoações da zona só com grandes dificuldades conseguem água para beber. A espoliação é permanente, imparável», queixa-se o presidente da Câmara de Tulkarem, Mahmud Jallad, 55 anos, pai de quatro filhos e engenheiro industrial. Sentado à sua secretária, junto de uma foto de Arafat, esboça um panorama desolador. Afirma que a construção do muro tem por objectivo anular a pujante economia de uma das cidades palestinianas mais próximas do território Israelita, a pouco mais de 17 quiilómetros, em linha recta, do mar. Do alto das suas colinas avista-se Telavive.
O muro resolve de um ápice as ambições do Governo israelita, quase tomando realidade o sonho do «Grande Israel» do Mediterrâneo ao Jordão. O muro prolonga-se de norte para sul, mas também se interna para leste, em território palestiniano, violando a «linha verde» que separa Israel dos territórios ocupados em 1967, futura fronteira dos dois Estados. Quando a construção estiver concluída, 200 mil Palestinianos ficarão emparedados, concentrados em nove enclaves que, no conjunto, terão cerca de 1 000 km2. No mapa, fica a sensação de que estas povoações ficaram em terra de ninguém, mas na realidade pertencem à Palestina.
As crianças na 'frigideira'
O exército israelita declarou estes enclaves «zonas fechadas» e começou a arrogar-se o controlo da população, usurpando muitas das funções que, segundo os Acordos de Oslo, eram asseguradas pela Autoridade Palestiniana. Os militares ditaram em tempo recorde quatro decretos marciais organizando a vida dos habitantes. A partir de agora, estes precisam de autorizações de residência para continuarem a viver nas suas casas e de salvo-condutos para entrarem e saírem por certos portões. Existem 12 autorizações diferentes. Há passes para médicos, professores, estudantes, agricultores, jovens, reformados, donas de casa, políticos, criminosos...
Jubara, cerca e cinco quilómetros a sul de Tulkarem, tem 500 habitantes. Acaba de ser transformada numa ilha. Por um lado, o muro impede os seus habitantes de chegarem a Tulkarem, ao mercado e à zona de serviços; por outro, os soldados impedem-lhes o acesso a Israel. A sua sobrevivência depende da arbitrariedade dos soldados. Precisam da autorização deles para ir comprar, vender, trabalhar. consultar o médico, assistir a enterros ou reunir-se com amigos e familiares. A sua vida ficou reduzida a poucas dezenas de quilómetros quadrados. O único consolo é a mesquita; a única diversão é a televisão. «Vivemos isolados do mundo. Estão a tornar-nos a vida impossível para nos obrigarem a partir. Mas decidimos ficar. Esta é a nossa terra», afirma Ahmed Massud, 52 anos, pai de sete filhos, antigo professor e agora agricultor desempregado. Os seus campos ficaram. com os de todos do outro lado do muro. Este ano ninguém irá colher as azeitonas nem as laranjas.
Esta manhã, um grupo de crianças da aldeia atravessou a brincar as linhas israelitas e acabou aprisionado pelos soldados. Enfiaram três delas numa minúscula caixa de cimento Junto da estrada, perto do posto de controlo. Permanecem de cócoras, com os corpos apertados. Têm os calções molhados de urina; os olhos vermelhos de chorar. De vez em quando, lançam gritos a pedir para voltarem para casa. Então, a bota do soldado balança-se por cima dos seus corpos. A ameaça fazê-los calar. Quando chegar a noite, deixam-nos ir em liberdade. Até os mais pequenos, em Jubara, estão a aprender a viver enclausurados.
Enjaulados em sua casa
O muro também destruiu Bartha (7500 habitantes), a meio caminhoo entre Tulkarem e Jenin. A povoação está dividida desde 1948, quando foi proclamado o Estado de Israel. Uma parte dos habitantes adquiriu a nacionalidade israelita e a outra ficou palestiniana. Hoje, cerca de 4 mil pessoas vivem em Bartha-Leste, onde ondula a bandeira palestiniana; os outros 3 500 vivem em Bartha-Oeste sob a bandeira de Israel. Durante anos, nada nem ninguém parecia separar as duas partes. Não havia fronteira visível. Todos falavam a mesma língua - o árabe.
O muro fez ir pelos ares o equilíbrio de Bartha. A cerca não coincide com a «linha verde», que passava pelo meio da cidade. O muro foi construído a três quilómetros do núcleo urbano e fechou à comunidade palestiniana o caminho para Jenin, o seu principal centro comercial e assistência. Os habitantes de Bartha-Leste ficaram sem saídas: o muro impede-os de irem à Palestina e os soldados de irem a Israel.
«Bartha-Leste é hoje um gueto. Vivemos numa prisão. Há semanas que o caminho para Jenin está encerrado. Não posso chegar ao meu posto de trabalho na delegação do Ministério dos Transportes da Autoridade Palestiniana», afirma Ghassan Qabha, 39 anos, engenheiro industrial, pai de quatro filhos e presidente da Câmara desta zona da cidade.
Suleiman Zewahra, 48 anos, pai de seis filhos, lutou um ano nos tribunais de Jerusalém para salvar a sua casa. Os juizes ordenaram aos militares que a poupassem. Mas não puderam impedir que o muro, ali transformado em vedação, invada o jardim e rodeie a casa. A família Zewahra está hoje metida numa jaula.
«Vieram os soldados e disseram: É melhor que te vás embora: Respondi que esta era a minha casa. Construí-a há quatro anos. Gastei nela as poupanças de toda a vida. Fechei-lhes a porta e fui buscar um advogado. Consegui salvá-la, mas perdi tudo o resto; quer dizer, a maior parte do jardim. Deixaram-me o imprescindível. Mas até tentaram arrancar-me à força o pouco que me restava», explica Suleiman Zewahra. Com o dedo indicador aponta as fendas que as trepidações das escavadoras abriram nas paredes da casa.
Embora afectada, a casa de Suleiman Zewahra permanecerá no alto da colina de AI Diek, no bairro cristão de Beit Sahur, perto de Belém. Do seu terraço, pode observar-se o traçado de um muro que avança demolidor, com o objectivo de circunscrever toda a cidade. As escavadoras ameaçam isolar toda a povoação (154 mil habitantes) e cortar o fluxo de turistas e peregrinos. A construção da cerca pode mesmo implicar a demolição de um grupo de sete edifícios, num total de 49 apartamentos, onde vivem 25 famílias cristãs."
«Esta urbanização é um projecto ambicioso com o qual se procura proteger as comunidades cristãs na Terra Santa, impedindo a sua emigração. É o mais importante da Palestina. Procura dar alojamento a todos os cristãos por igual, embora esteja construí do em terrenos que o Patriarca Ortodoxo Grego nos alugou por 99 anos. Agora, dá abrigo a 25 famílias. Se o conseguíssemos terminar, viveriam aqui 135 ou mais», afirma o seu promotor, o médico Jader Kokaly, de 40 anos.
O Dr. Kokaly começou uma batalha desigual contra o exército israelita. O seu objectivo é desviar o traçado do muro e salvar o complexo da demolição. A última proposta do comando militar prevê deixar as suas casas isoladas, entre o muro e a fronteira, nessa aparente terra de ninguém, mas dotando os habitantes de uma porta de acesso. As chaves ficariam no bolso dos soldados. Os habitantes não aceitam e não acreditam que possa ser alcançada uma solução razoável. Volta a desenhar-se no horizonte o fantasma da emigração e do exílio. Por agora, a decisão é clara: ficar.
«Bulldozers » na Cidade Santa
Em Jerusalém Oriental ,três comunidades religiosas cristãs conseguiram deter a construção do muro, que deve envolver os 31 bairros árabes da Cidade Santa para isolar mais de 200 mil cidadãos. Essa acção conjunta, apoiada pelo Patriarca Latino e pelos consulados da França e da Itália, conseguiu congelar as obras no momento em que as escavadoras, provenientes do monte das Oliveiras, se preparavam para o assalto e dispunham a descer sobre o bairro muçulmano de Abu Dis.
“As escavadoras pararam por agora, mas lá se apropriaram de uma parte considerável da nossa herdade, onde se encontra a nossa casa-mãe e o orfanato onde vivem mais de 40 crianças palestiniana», diz a madre superiora das Irmãs da Caridade, a irmã Josefina, de 80 anos, natural de Turim (Itália), apontando uma faixa limpa e desmatada com mais de cem metros de largura que desce da montanha, invade o seu território e parece querer atropelar outros conventos próximos.
Abu Dis (10 mil habitantes), sede da Universidade Al-Quods e do futuro Parlamento da Autoridade Palestiniana, transformou-se em símbolo da resistência. Neste interminável compasso de espera, a população pergunta angustiada se o milagre irá ocorrer. Conseguirão as freiras cristãs parar as obras? Acabará o muro por dividir o bairro? Todos os dias, os soldados trazem um novo rumor. Os blocos de betão que fecham a velha estrada que ligava o centro de Abu Dis ao centro de Jerusalém e permitia aos fiéis irem orar na mesquita de Al-Aqsa, recordam-lhes a ameaça.
«Sabe se poderemos salvar a nossa casa?, pergunta Usama Zahaikeh, 40 anos, construtor, pai de três filhos e habitante de outro bairro árabe, o de Sawahre. Sem esperar uma resposta, começou a montar uma tenda num largo. Dali segue a evolução das escavadoras. A sua tenda transformou-se em ponto de informação sobre o muro. As patrulhas do exército levaram-no, com outras 45 famílias. Ameaçaram-no para que abandonasse a casa. Os militares avisam que não querem complicações e reclamam um terreno vazio para Implantarem o muro.
«Não conseguirão expulsar-nos», exclama Zahaikeh. Por detrás dele, permanece atenta uma massa compacta de 30 mil habitantes. Ouve-se a voz do muezzin no alto do minarete da mesquita. Os palestinianos procuram sobreviver.
(in Visão Nº 572)
GIN
Publicado por agineotonico às 07:40 PM | Comentários (1)
MURO DA VERGONHA
Resposta ao comentário deixado no meu post “Muro da vergonha” que, segundo o seu autor, não sendo palavras suas exprimem o seu pensar sobre o assunto
“É evidente que num mundo em que as palavras "muro", "racismo" e "apartheid" têm uma conotação tão dolorosa e simbólica, a escolha destas palavras não é inocente. A sua utilização é um estigma, tenta fazer de Israel um Estado pária, um país que perdeu a sua legitimidade entre as nações. "
De facto não é inocente a escolha destas palavras. Também é verdade que têm uma conotação dolorosa e simbólica.
Mas a sua utilização neste caso concreto do conflito Israel/Palestina torna-se necessária e imperativa para que o seu significado doloroso e simbólico não seja esquecido.
O argumento já desgastado de que denunciar a política belicista e expansionista do actual governo israelita é um ataque a todo o Povo de Israel, é uma desconversa que tenta legitimar a agressão impiedosa e a ocupação que está a ser feita nos territórios palestinos.
Muro do "apartheid", porquê? Por acaso vem a barreira de segurança "separar" ou excluir uma parte da população de Israel, privando-a dos direitos normais da cidadania israelita?
Pode ser verdade que não isole a população israelita, mas sem dúvida separa e exclui o povo palestiniano privando-o dos seus direitos normais de cidadania. Ou para si só têm visibilidade o povo de Israel?
O conceito de apartheid pode ser mais vasto que isso. Porque parte do princípio que nenhum israelita quer ter relações livres com os palestinos? ou quer ter relações com as comunidades cristãs que estão a ser também “emparedadas” e isoladas?
Imagine que aqui na Europa todos os países constróem um muro isolando os seus países dos outros, colocam tropas altamente armadas em alguns portões estrategicamente colocados, não lhe permitem trabalhar no outro lado do muro, nem visitar familiares que lá vivam, lhe exigem um salvo-conduto para se deslocar e apenas na condição de ter um “aspecto e idade regulamentar”. Imagine ainda que constróem os seus respectivos muros anexando território fértil, ou mais ricos em recursos híbridos às populações dos outros países utilizando a força das armas, ou que, nessa anexação indevida, “os soldados arrancaram pela raiz mais de 50 mil oliveiras, na maioria centenárias”.
E já agora, muro racista porquê? Será que o "muro" se destina a delimitar um espaço étnico, separando também os cidadãos árabes israelitas dos seus compatriotas judeus?
Também o conceito de racismo é mais vasto que esse sentido estrito que pretende dar-lhe. Volto a formular a pergunta que fiz em cima .. porque não a relação entre israelitas e árabes não judeus?
Por outro lado, o racismo também se traduz pela política de intolerância e pela forma como tratamos outros povos, ou não?
E a construção do muro (ou chame-lhe o que quiser) resulta apenas de uma política de anexação de território indevida e de uma incapacidade de para se relacionar de uma forma democrática e cooperativa com outros povos. Na realidade, na base da sua construção estão os mesmos princípios da construção do Muro de Berlim, ou seja, fracturar a relação entre as populações sejam elas do mesmo povo ou de povos diferentes. Também corresponde a uma política de apartheid porque visa criar espaços de movimentação às populações sejam elas do mesmo povo ou de povos diferentes.
E é um muro seja ele todo em cimento ou de arame farpado electrificado porque o resultado final é o mesmo.
“É que é necessário esclarecer, de uma vez por todas, que os cidadãos palestinianos que vivem nos territórios ocupados por Israel, numa ocupação que apesar de durar há já demasiado tempo, é provisória”
Fiquei a pensar se na realidade sabe o que se passe por lá, se tem lido alguma coisa sobre esta “ocupação provisória”. Por via das dúvidas vou colocar no próximo post um artigo da Visão sobre isso.
É que o muro de betão está a ocupar território palestino destruindo casas, destruindo, em muitos sítios, a economia local porque separou a população dos solos de cultivo que a sustentavam. Para provisório parece-me um investimento muito estranho ....
GIN
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Publicado por agineotonico às 07:35 PM
março 06, 2004
JÁ NÃO SE PODE SER JOVEM E COMPETENTE
"Pouco depois de assumir a pasta da Justiça, Celeste Cardona defendeu a extinção do Gabinete de Auditoria e Modernização por considerá-lo inútil.
Quase dois anos depois, o gabinete onde já trabalharam 16 funcionários conta apenas com o motorista, já que todos os outros foram transferidos.
Essa realidade não impediu a ministra de nomear, a semana passada, dois jovens quadros para a direcção.
A nova directora tem 30 anos e licenciou-se em 1997. O sub-director tem 29 anos, licenciou-se em 2001 e tem como única experiência profissional a de consultor de um gabinete do Ministério.
O «Diário de Notícias» diz que estas nomeações estão a causar mal-estar no Ministério da Justiça, dado que os dois quadros têm pouca experiência e vão receber os ordenados máximos permitidos na Função Pública, ficando imediatamente abaixo do primeiro-ministro.
Assim, a direcção vai receber uma remuneração de 5541 euros e o sub-director vai receber 5380."
(in TSF)
Já não se pode ser jovem e competente!
GIN
Publicado por agineotonico às 11:09 PM