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dezembro 28, 2003
DO MUNDO SÓ VEMOS O QUE QUEREMOS
Parece que me vou pacificando com a blogosfera depois de ter lido um post do Rui, “Na pele do outro”, no Adufe.
A humanidade que o Rui expressa neste seu questionamento, fez-me pensar na sua antítese, no questionamento do tristemente opinioso e director do Público – José Manuel Fernandes – no editorial de sábado “Misérias Humanas”.
Rui reconhece que “por mais que queira não encontro paralelos no meu pequeno mundo que me permitam aproximar a tragédia, perceber o incompreensível, imaginar-me verdadeiramente na pele do outro. Desconfio, contudo, que esse é o nosso maior desafio e a nossa maior esperança ... “.
Refere-se este post do Rui a tragédias como o sismo no Irão, os crimes da Alemanha nazi e o ataque do 11 de Setembro.
São diferentes situações, mas são situações de tal envergadura que torna difícil o seu entendimento para quem as não viveu de perto, por isso, as palavras do Rui fazem todo o sentido e o seu significado é extremamente humano.
José Manuel Fernandes no seu editorial sobre as “Misérias Humanas”, engatilha as armas e dispara balas em todas as direcções menos para onde devia. Penso que isto se deve ao seu treino de apoio à política belicista desta administração americana, do seu apoio à invasão do Iraque e do seu apoio ao apoio do governo português àquela política.
Perdeu-se da realidade, vê terroristas e maus da fita em todo o lado e aponta um dedo acusador indiscriminadamente a pessoas de quem não conhece, nem quer conhecer, as circunstâncias de vida.
É o que acontece quando vivemos sem dificuldades, colados ao poder, nos fechamos num dado meio e nos mantemos numa deliberada incultura para podermos acusar pessoas individuais por actos que têm origem nas condições sociais em que são obrigadas a viver.
Diz J. M. Fernandes que muitas famílias depositam os velhos nos hospitais no verão e nestas alturas de natal porque “assim não incomodam nem atrapalham”.
É chocante sem dúvida esta situação.
Mas sabe JMF quanto custa um lar? quanto é o orçamento familiar dessas famílias? qual o apoio que têm da segurança social? em que condições económicas, sociais e culturais vivem essas famílias?
Não, isso não interessa ... estas famílias sofrem apenas de miséria moral, aponta a arma e vai tiro.
A leitura que faz destes factos é que não são “actos de desespero gerados pelas mais absolutas carências, mas gestos de egoísmo que quebram todos os laços de solidariedade, mesmo com os que nos estão mais próximos”.
Quando a isto só posso perguntar se está a falar por si próprio, se está a fazer algum exame de consciência. É que, tanto quanto se sabe, estes casos estão relacionados com dificuldades efectivas de muitas famílias portuguesas.
Apronta de novo a arma e volta a disparar desta vez sobre a nossa atitude hedonista que nos faz viver o prazer imediato, a não olhar os sentimentos alheios, a fazer gala de discursos que não integram a noção de partilha e privação, de nos termos desabituado quase por completo de ter e criar filhos por não querermos assumir privações.
Pensei que JMF estivesse a transcrever o discurso de um qualquer padre (sem ofensa para os católicos) inculto do Portugal mais profundo na missa do galo, mas não, era mesmo ele a ir atrás do choro de um discurso absurdo, demonstrativo da sua ignorância ou da sua opção política do mais à direita possível.
Diz ainda JMF que são “comportamentos de que está ausente a simples ideia de que um dia, um momento, se tem que fazer um sacrifício por alguém”.
Concordo inteiramente, peço ao Sr. José Manuel Fernandes que faça o sacrifício, de um dia, um momento, ser mais honesto naquilo que escreve informando-se sobre as origens dos comportamentos que critica, evitando assim insultar a nossa inteligência.
GIN
Publicado por agineotonico às dezembro 28, 2003 10:35 PM
Comentários
Infelizmente insultos à inteligência dos cidadãos deste país, são tão comuns, quanto abundantes e de origens diversas. Se a ministra das finanças fosse imaginativa q.b., dignar-se-ia a aproveitar essa fonte inesgotável de rendimentos. Uma espécie de energia alternativa!
Um abraço
Rodrigo Ribeiro
Publicado por: Rodrigo Ribeiro às dezembro 28, 2003 11:02 PM