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dezembro 08, 2003

ARGUMENTOS DE MAU GOSTO


Um post no blog vozdodeserto diz que “sobre o aborto há sempre que domesticar”.

Mais à frente, estabelece comparação entre as mulheres que se vêm na circunstância de recorrer à interrupção voluntária da gravidez com “uma recém-viúva caniche portuguesa prenha”.

É, de facto, de muito mau gosto.

Gostaria de responder à questão que coloca: se essa “caniche recém-viúva” fosse espécie única, naturalmente defenderia o “fruto do ventre do canídeo”.

Mas como nem as mulheres são canídeos, nem gatas (que tão bem, o autor deste post, domestica com “palmadas no lombo e dedadas vigorosas na testa), nem existe apenas uma única mulher em Portugal, esta questão não coloca nestes termos.

Também não se coloca em termos da “livre iniciativa pecaminosa ... para que todos os vícios possam ser supridos desde que de mútuo acordo entre os viciosos”, porque a forma como cada um entende a sua sexualidade é uma opção individual.

A questão que se coloca, é que o aborto clandestino em Portugal (cerca de 40.000 por ano) é uma realidade e as mulheres que a ele recorrem, sujeitam-se a graves riscos e mesmo à morte.

Assim sendo, a questão do aborto tem que ser encarada como um problema de saúde pública.

Outra questão que se coloca, é que muitas mulheres, de meios com poucos recursos económicos, recorrem ao aborto clandestino realizado sem quaisquer condições de segurança.

Mas as mulheres com maior capacidade económica, de entre elas as que pertencem às famílias dos senhores deputados que clamam contra a legalização do aborto, recorrem a clínicas aqui em Portugal ou no estrangeiro, que lhes proporcionam boas condições de segurança física e psicológica.

Por isso, esta discussão está eivada da mais profunda hipocrisia.


GIN

Publicado por agineotonico às dezembro 8, 2003 03:07 PM