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novembro 14, 2003

PACHECO PEREIRA TEM UM LADO (3)

“O atentado de Nassíria torna ainda mais importante reforçar os contingentes militares no país e internacionalizá-los, mobilizar todos os esforços da comunidade internacional para ganhar o combate da estabilização do Iraque”(JPP)

De que estabilização fala JPP? Da estabilização que fala Bush?
É que não me parece que a estabilização que Bush pretende seja a mesma que o “centro” defende.

A estabilização do Iraque passaria, sem dúvida, pela tomada de posições claras face ao que se passa em todo o Médio Oriente, passaria por criticar a política belicista de Israel, por estabelecer com os países da região acordos de cooperação e de não agressão.

Mas o que se vê é o inverso: apoia-se a destruição do povo palestino e a ocupação dos seus territórios, ameaça-se a Síria e o Irão, etc., compreende-se que os iraquianos tenham dificuldade em dar crédito às declarações do Ocidente.

“O combate do Iraque não é contra qualquer “resistência” nacional, é contra os restos do regime do Baas e de Saddam, e contra grupos terroristas internacionais, gente que, se alguma vez voltasse ao poder, provocaria um banho de sangue entre os iraquianos. Os primeiros a saber disso são os próprios iraquianos.” (JPP)

Mais uma forma diferente de referir o que Bush chama de “eixo do mal”.
O combate no Iraque é entre a defesa dos interesses económicos e estratégicos dos EUA e outros países ocidentais e diferentes forças internas, de entre elas os fieis a Saddam e, tanto quando tem veiculado a comunicação social, alguns grupos do exterior.

Tentar fazer esquecer que existem forças dentro do Iraque que não pertencem nem a grupos terroristas, nem a fieis a Saddam, só pode ser por necessidade de defender que “ninguém cabe verdadeiramente em nenhum dos lados, mas é empurrado para um deles”, porque, na perspectiva que JPP quer fazer passar, só há dois – EUA e SADDAM.

“Ao fim de meses sem conta a ouvir falar da comunidade internacional e das Nações Unidas, como argumentos últimos de autoridade, convém não esquecer que hoje este esforço militar é também caucionado por essa comunidade e por essas mesmas Nações Unidas”. (JPP)

Pacheco Pereira, por lapso de memória, acho eu, esqueceu-se de diferenciar o tempo sem conta a ouvir falar da Comunidade Internacional e das Nações Unidas.

É que foi um falar pelo menos a três tempos:

- o primeiro quando se opôs à intervenção militar no Iraque e que não foi ouvida pelos chamados “países da coligação” que consumaram a destruição e ocupação militar do território iraquiano;

- o segundo, quando tentou ter maior poder de intervenção para não permitir que os EUA dispusessem a seu belo prazer da economia e do poder no Iraque

- e, num terceiro momento, não totalmente límpido, quando os EUA se vêm a braços com uma situação que não controlam, passa a caucionar um esforço militar no sentido de tentar pôr cobro à instabilidade criada pela invasão militar.

“É exactamente porque aconteceu o que aconteceu no Iraque que é fundamental que Portugal envie as suas tropas ... O atentado de Nassíria torna ainda mais importante reforçar os contingentes militares no país” (JPP)

Não concordo que sejam mandados quaisquer contingentes militares para o Iraque, sem que sejam asseguradas todas as garantias que impeçam que os EUA transformem aquele país num feudo de onde podem controlar económica, estratégica e militarmente aquele país e todo o Médio Oriente.

Foi claro na discussão da última resolução do Conselho de Segurança, que os EUA não irão abrir mão das suas pretensões.

Considero que é este o momento determinante para colocar os EUA “contra a parede” e apoiar de forma efectiva a reconstrução do Iraque dentro do respeito pela sua independência nacional e dentro do respeito pela sua cultura, ou culturas internas.

Isto não é estar do lado do “eixo do mal”, do lado de Saddam e dos terroristas que ali actuam, também não é estar do lado de Bush e dos terroristas que tem por conta, de JPP e dos países que reforçam militarmente o Iraque sem condições prévias aos EUA.

Isto é estar do lado do respeito pelo direito dos povos à sua integridade nacional, à sua cultura e à escolha do seu próprio percurso.

É estar contra os discursos fascizantes que só vêm dois lados:

- um como o “lado dos homens ... de uma precária mas identificada civilização ... que já mostrou o que vale e que não vive do terror, nem da violência, mas da procura da conciliação de interesses e modos de vida. Nenhuma outra civilização me dá as liberdades e a possibilidade de felicidade que esta me dá, a mim e, potencialmente, a todos os homens” (JPP)

- e o outro lado, que está implícito, é uma civilização sem identificação mesmo que precária, que vive no terror, na violência, que não procura conciliar interesses nem modos de vida, que não dá garantias de liberdade e de possibilidade de felicidade a potencialmente todos os homens.

Este discurso que tenta apagar a visão do “centro”, que só vê “os bons” e os “Maus” na perspectiva que aqui nos coloca JPP, é perigosa porque transforma a questão do Iraque numa guerra entre culturas, sendo que a “nossa” é a melhor mas que “ninguém me ouvirá dizer que este é o lado de Deus ... mas ouvir-me-ão dizer que este é um lado dos homens”.

De facto não me identifico com qualquer destes lados que JPP descreve.
Identifico-me com o centro, ou o outro lado, ou o que quiserem chamar ... identifico-me com os princípios dos direitos humanos, do direito à autodeterminação dos povos e às relações de inter-ajuda internacional.


GIN

Publicado por agineotonico às novembro 14, 2003 07:10 AM