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outubro 20, 2003

A INTOLERÂNCIA DOS VELHOS

Acho que estou a ficar velha. O pacheco Pereira está mesmo velho, está a começar a ficar nublado, está com a intolerância dos velhos na análise que faz das gerações mais jovens.
JPP vê na utilização do papel higiénico, uma manifestação de uma geração "rasca" e é intolerante.
Eu vejo com intolerância o desperdício daquele papel higiénico que tanta falta faz dentro da Assembleia da República.
Mas tento reflectir sobre estes comportamentos reportando-me à altura em que tinha a idade destes maníacos higienistas.

É que, quando tinha aquela idade, tal como JPP, já era "precocemente adulta", já tinha vivido algumas repressões que nos levava a afirmarmo-nos através da aquisição de uma "bagagem cultural", de uma participação mais ou menos activa em movimentos de oposição estudantil ao regime vigente.

Esse percurso específico da nossa vida, fez-nos "adultos precoces". levou-nos a deixar "as rasquices" de lado para, como cidadãos adultos participarmos de forma activa nas alterações sociais que se desencadearam.
Fomos uma "geração de sorte", fomos uma geração que se guiava por objectivos ....

Hoje as coisas mudaram muito, e nós os "Jovens Adultos Precoces" que não fizemos "grandes rasquices", não somos isentos de culpa em algumas das mudanças que hoje criticamos nos estudantes universitários.

Penso que estas manifestações higienistas e outras dos (alguns) actuais estudantes universitários, resultam da ausência de necessidade de "bagagem cultural", de participação activa, crítica e coerente na vida política do nosso país.

A nossa culpa reside na manutenção de um ensino que continua a apelar mais ao "cala e come" do que ao "escolhe entre esta comida e fala".

Posso entender a utilização do papel higiénico como uma forma criativa de protesto, não me choca.
O que me choca é a limitação da consciência cívica que transmitimos aos nossos estudantes universitários.

GIN

Publicado por agineotonico às outubro 20, 2003 05:37 PM

Comentários

Tens razão Didas!
Se leres bem o que escrevi, é exactamente isso que quiz dizer (talvez não de forma tão desiludida com a minha geração)em relação às diferentes gerações. São gerações que viveram contextos diferentes e, por isso, temos que aceitar as diferenças.
Aceitar, não significa fazer de conta que não temos opinião sobre o assunto, significa que, talvez, se consiga ser menos intolerante.
Claro que haverá sempre pessoas diferentes ...
Claro que em qualquer geração, pessoas cometerão crimes por uns míseros cêntimos ...
e, Claro, que não stresso por concordar que as diferenças talvez não sejam tão abissais assim ...

GIN

Publicado por: Gin às outubro 20, 2003 09:57 PM

O JPP podia voltar a ouvir "Les bourgeois"

do "velhote" mui respeitado Jacques Brel

Les bourgeois

le coeur bien au chaud

les yeux dans la bière

chez la grosse Adrienne de Montalant

avec l'ami Jojo

et avec l'ami Pierre

on allait boire nos vingt ans

Jojo se prenait pour Voltaire

et Pierre pour Casanova

et moi, moi qui étais le plus fier

moi, moi je me prenais pour moi

et quand vers minuit passaient les notaires

qui sortaient de l'hôtel des Trois Faisans

on leur montrait le cul et nos bonnes manières

en leur chantant

[refrain]

les bourgeois c'est comme les cochons

plus ça devient vieux plus ça devient bête

les bourgeois c'est comme les cochons

plus ça devient vieux plus ça devient c...


le coeur bien au chaud

les yeux dans la bière

chez la grosse Adrienne de Montalant

avec l'ami Jojo

et avec l'ami Pierre

an allait brûler nos vingt ans

Voltaire dansait comme un vicaire

et Casanova n'osait pas

et moi, moi qui restait le plus fier

moi j'étais presque aussi saoul que moi

et quand vers minuit passaient les notaires

qui sortaient de l'hôtel des Trois Faisans

on leur montrait notre cul et nos bonnes manières

en leur chantant

[refrain]

le coeur au repos

les yeux bien sur terre

au bar de l'hôtel des Trois Faisans

avec maître Jojo

et avec maître Pierre

entre notaires on passe le temps

Jojo parle de Voltaire

et Pierre de Casanova

et moi, moi qui suis resté le plus fier

moi, moi je parle encore de moi

et c'est en sortant vers minuit Monsieur le Commissaire

que tous les soirs de chez la Montalant

de jeunes "peigne-culs" nous montrent leur

derrière

en nous chantant


[refrain]

Publicado por: bisbilhoteiro às outubro 20, 2003 07:00 PM

Pois... eu também sou da geração que conheceu algumas repressões e que por isso cresceu com uma consciência política forte e pautava as suas acções por objectivos e blá blá blá...
É tão fácil cair nesse discurso que até eu já me surpreendi a mim própria com os dois pés a resvalar por ele.
A geração que nós chamamos "rasca" não passa de uma geração com uma vivência diferente da nossa, que já não conheceu a repressão pelo simples facto de já ter nascido em democracia. Lucky them!
É um fenómeno que tem que acontecer. Um dia já não estará vivo ninguém que se lembre de ter vivido sob o regime salazarista, nem do 25 de Abril, em que seja ridículo gritar "fascismo nunca mais!" e aí, isto será um país normal com feriado político no dia 25 de Abril que não significará mais que o 5 de Outubro e ainda bem.
Mas não entrem em pânico! Continuarão a existir pessoas inteligentes outra menos e outras menos ainda, continuará a haver pessoas conscientes e outras nem tanto, os dias continuarão a nascer e isso tudo, tal como já acontece agora, em que há pessoas da nossa geração politicamente empenhada que que mata a família toda por uns cêntimos. A diferença não é assim tanta, não stressem!

Publicado por: Didas às outubro 20, 2003 06:10 PM

A geração do JPP tem a memória curta ( ou assim convém).É certo que a época e o contexto eram diferentes, mas a contestação dos estudantes era tão válida na altura como hoje. Hoje os "senhores" têm um estatuto diferente do que tinha naquela altura, e portanto não fica bem posições tão radicais. Bom é verdade que os ideais de muitos deles mudaram ( por exemplo as posições do actual 1º ministro, antes do 25 Abril, após o 25 Abril e as de hoje)

Publicado por: vmar às outubro 20, 2003 05:58 PM