COM A PRIVATIZAÇÃO DO HOSPITAL DO BARREIRO
D. tem 5 anos e só este ano conseguiu vaga para entrar no pré-escolar da rede pública do Barreiro.
Vive com a avó e uns tios. Nunca conheceu o pai e a mãe é uma adolescente ex-toxicodependente.
Esta família nunca entendeu a necessidade de D. ingressar mais cedo na pré-escolar e não teria dinheiro para o colocar num privado, mesmo que solidariedade social.
Foi pedida uma avaliação de D. porque apresentava dificuldades acentuadas de linguagem.
A avaliação foi realizada pela equipa de apoios educativos da Drel, que reconheceu as dificuldades de D. e a necessidade de ser acompanhado para conseguir atingir um nível de linguagem que lhe permita ingressar no 1º Ciclo e prosseguir com a sua escolaridade com sucesso.
Foi encaminhado para o Hospital do Barreiro agora privatizado e recebeu como resposta que não há terapeuta, que a lista de espera é grande e que a dificuldade da criança não é grave e que, por isso, não tem direito a fazer terapia da fala.
Seria interessante, ou melhor, seria fundamental fazer uma avaliação das crianças que no hospital do Barreiro estão, agora que foi privatizado, a ter acesso à terapia da fala porque estão a ser recusadas crianças com necessidades efectivas mas de baixos recursos económicos.
A Segurança Social prevê um subsídio à família que paga parte destes apoios, mas quando ele é cedido, dilui-se em outras necessidades destas famílias muito carenciadas.
Quando se faz a privatização da Saúde, devem criar-se mecanismos que continuem a assegurar a prestação destes apoios que os serviços de saúde públicos prestavam às populações mais carenciadas.
Estes casos, e há muitos outros, são casos de crianças de famílias que não têm nem a capacidade de perceber essa necessidade das suas crianças, nem capacidades económicas para recorrer a serviços privados.
Os professores sentem que não têm preparação para dar resposta a estes casos de crianças que acumulam dificuldades, que estão a ser abandonados pelas medidas recentes na área da saúde e que vêm juntar-se aos já muitos casos problemáticos da sua escola.
O Ministério da Educação, pelo seu lado, faz de conta que não tem nada a ver com isso e não assume como suas, as responsabilidades que o seu colega da saúde deixou de assumir.
O Ministério da Educação deveria assegurar a constituição de equipas multidisciplinares nos agrupamentos escolares que assegurassem um conjunto de apoios fundamentais a estas crianças.
Mas não. A verdade é que ninguém aposta nestas crianças. São crianças que estão condenadas à partida a ser marginais.
GIN