outubro 31, 2003

ACABOU-SE O SILÊNCIO

Tinha assumido, há tempos atrás, que não voltaria a referir-me às mexeriquices em torno do Processo Casa Pia, mas este post fez-me quebrar o silêncio.

Aqui tantos a recitar coisas que outros tantos não entendem e aplaudem.

A recitar textos sobre a vida dos outros, sobre uma vida que não conhecem, que nunca viram, ou que viram mas nem sequer olharam de perto com olhos de ver.

Imagino-vos sentados em frente aos pcs.
Copos de whisky ao lado, duas pedrinhas de gelo a boiar.
Pés calçados de meiinhas confortáveis, ora às riscas, ora de um cinzento mais solene, quiçá, de vez em quando, um lenço ou um lacinho ao pescoço, restos do encontro de amigos que ali fica pela urgência de teclar as récitas confrangedoras, de uma inexplicabilidade moral sem nome.

«Não, não me misturem nesses “somos todos responsáveis” ... não quero saber das crianças da Casa Pia e em que em nome delas diz falar. Não tenho nada a ver com isso, isso é coisa de pedófilos, vão lá ter com eles e não me chateiem. O meu mundo e o dos meus amigos é limpo, não tem nada dessas merdas em que os querem envolver».

Depois, o vosso sorriso beligerante ... e o vosso murmúrio estupidificado “toma lá esta Catalina, já levaste!!”
.... eu cá, só mesmo dizer coisas importantes sobre o povo de Timor e a repressão da indonésia, porque é fino e fica bem; ou sobre o movimento anti-globalização, que é coisa de intelectuais; ou da prostituição infantil na fronteira checa que é bem longe daqui, que é uma imoralidade dos sacanas dos alemães que se aproveitam; ou andar na picardia com os de direita ou com os de esquerda, que cá eu demarco-me por causa das tosses ...»

Tanto teatro, tanto teatro de má qualidade!!!

Ah porra! que saudades tenho dos teatros de marionetes que via nas ruas de Campo de Ourique na minha infância. Era tudo tão simples aos nossos olhos arregalados de crianças!
Era tão simples. Havia os bons e havia os maus que, invariavelmente, levavam traulitadas na cabeça pondo fim às suas maldades e à história.

Mas agora, temos teatro sofisticado, temos teatro enredado em palavras organizadas em discursos bem escritos; jogamos com as palavras e juntamo-las em bons textos, muitos deles com um humor que nos prende mais à arte da escrita, do que ao conteúdo subjacente.

Pelo que me toca, e trabalho há mais de 26 anos com crianças com problemas, o que me movimenta, não são os jogos de palavras elaborados longe da realidade da vida (que não a vossa onde vocês se umbigam), longe da realidade “das vidas”, mas sim um ideal de Solidariedade (ver significado no dicionário), de Solidariedade Social e um sentido de dever.
O dever solidário de pôr o meu saber, o meu saber fazer, as minhas capacidades técnicas e humanas disponíveis para além do limite das minhas obrigações profissionais.

Este para além de ... refere-se tanto a actividades, como à procura de respostas o mais coerentes possíveis, em relação às coisas que se passam.

Não me venham com a treta da religiosidade deste discurso, ou tretas do estilo ... não perfilho qualquer religião, nem milito em qualquer partido ... milito, como disse, num ideal de solidariedade social.

No fundo, tento “não postar sentenças”, tento, também, não falar das coisas com a leveza do desconhecimento mas com uma intuição afectuosa e solidária.

É preciso agir ... mesmo que essa acção se resuma a fazer um esforço de compreensão, uma análise das situações com base em informação diversa, compreender as raízes históricas e culturais, humanas e técnicas de determinados fenómenos.

Quando os fenómenos são o Processo da Casa Pia, as coisas fiam mais fino ....

Percebo que os meninos que cresceram à sombra de ambientes estruturados, onde puderam crescer sentindo-se seguros, queiram fechar os olhos e ver apenas o seu mundo muito limpinho e isento de responsabilidades.

Mas qualquer pessoa que tenha consciência e espírito solidário, saberá ver que o mais importante nesta história são as crianças que foram violentadas.

Não são só as crianças da Casa Pia que aqui estão a ser defendidas, são todas as crianças deste país que de uma forma ou de outra são consideradas “deuses menores”.
Há mais de 400 mil crianças de rua em Portugal, isto não diz nada?
Há instituições onde crianças são agredidas sem ter quem as defenda, isto não diz nada?

As Catalinas, os Júdices, os opinantes de todos os quadrantes são bonecos de entreter ... a questão está em que:

ESTE É O PAÍS QUE TEMOS E NEM SEMPRE É AGRADÁVEL DE VER.

NEM SEMPRE CONSEGUIMOS ACEITAR QUE TEMOS A PORCARIA À PORTA DE CASA.


GIN

Publicado por agineotonico em outubro 31, 2003 08:05 PM | TrackBack
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