Aparvalhem como eu aparvalhei (4)
(ainda a entrevista da Maria Belo)
"A verdade é que todos nós fomos violados na infância, isto é, temos fantasias, quase sempre inconscientes, de violação, de sermos batidos, que podem ter uma base de realidade, mas que são sobretudo um biombo para o nosso desejo infantil ... é preciso que os investigadores saibam isto, mas também têm de saber que o facto de haver estas fantasias e fantasmas nas crianças não significa que as crianças não tenham sido abusadas realmente" (sic)
É verdade que, desde muito cedo, a criança fantasia o mundo real. É a partir das fantasias que a criança se vai apropriando desse mundo real e o vai integrando em forma de conhecimento. Vai também fantasiar em torno da sexualidade e continuará a fantasiar pela vida fora.
Agora falar em fantasiar na infância no contexto deste Processo da Casa Pia, coloca-me a questão de se Maria Belo acredita que as dezenas, senão centenas de crianças que referem terem sido alvo de abuso sexual, andaram a fantasiar colectivamente. Será possível que acredite também que a fantasia marcou fisicamente algumas destas crianças para toda a vida, como é o caso das que sofrem de incontinência anal?
Quanto às marcas psicológicas, e ao impacto destas no percurso de vida dos que foram alvo de abuso sexual, seria interessante que Maria Belo se dedicasse a esse estudo e apresentasse as suas conclusões na qualidade de psicanalista.
Seria interessante sobretudo, porque se tem tentado passar a ideia que aquelas crianças nasceram prostitutas e que, por isso, o terem relações com adultos não cabe no quadro de abuso de menores.
Muitas destas crianças foram violadas de forma continuada dentro da Casa Pia, foram levadas, de forma organizada, a manter relações com adultos fora da instituição a troco de dinheiro e, claro, muitas delas prosseguiram a sua vida na prostituição, na toxicodependência e noutras formas de delinquência.
Mas outras tentaram e conseguiram refazer as suas vidas à custa de muito sofrimento, de muito silêncio, de muito "esquecimento" e o levantar deste processo está, com toda a certeza, a ter um tremendo impacto nas suas vidas pessoais.
A exigência do apuramento de responsabilidade e a punição exemplar dos culpados, deve-se à necessidade de, por lado, pôr termo a esta situação que se arrasta há décadas e, por outro, ajudar as crianças, os jovens adultos e os adultos alvos destes abusadores a fazerem o "luto", a perceberem que a maioria dos portugueses e os seus representantes máximos que durante tanto tempo fecharam os olhos, não os vêm como culpados, mas como vítimas.
Esta parece-me ser a questão essencial ...
DA GIN
Publicado por agineotonico em setembro 24, 2003 10:12 PM | TrackBack