setembro 21, 2003

"a besta espreita, escarafuncha, rosna"

Allende e Pablo Neruda

Manuel Poppe
1. A diferença é de poucos dias – doze – e tudo aconteceu há trinta anos: em 11 de Setembro de 1973, Salvador Allende, Presidente da República do Chile, suicidava-se, no Palácio de La Moneda, assaltado pelas tropas do fascista Pinochet; no dia 23 do mesmo mês, morria, num hospital de Santiago, Pablo Neruda, poeta e Nobel honroso, amigo de Allende. Sequazes do futuro ditador saquearam o palácio e a casa de Neruda. A liberdade dos mortos assusta. O ódio –e o medo – à liberdade não conhece limites, que o digam as vítimas do salazarismo e do franquismo, cuja agonia, aliás, já se iniciara. Pinochet continua vivo, gozando a imunidade de "doente senil"... E porque foi obrigado a resignar. Mas, sob condição e depois de muitos anos de assassinatos e torturas.
2. Horas antes de ser internado, Neruda disse ao oficial que lhe revistou a casa: "Há aí uma coisa perigosa". O esbirro, alarmado, perguntou: "O quê?!" E a resposta é tremenda: "Há poesia..." Exactamente aquilo que levara Allende a sonhar democracia e liberdade. Aquilo por que fuzilaram milhares de chilenos. A força mais forte de todas as forças, que, diante da raiva da besta fascista, se opõe à opressão e à exploração do outro -a força do Espírito.
3. No estertor final, Neruda acusava ainda: "Los están fusilando, los están fusilando!" O cortejo fúnebre que acompanhou o poeta à cova provisória caminhou entre metralhadoras. Hoje, Allende e Neruda recuperaram campa digna. Mas convém não esquecer nada -a besta espreita, escarafuncha, rosna.

(in JN)

Publicado por agineotonico em setembro 21, 2003 09:20 AM | TrackBack
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